Não desocupe a subjetividade

Estamos num momento raro. Muitas polêmicas, agressividades, ironias, devaneios. Percebo no cotidiano que a tensão não diminui. A instabilidade incomoda, os governos pensam e planejam a opressão. Volta o famoso patrulhamento ideológico, a polícia atua de forma ostensiva. Vivemos um estado de exceção?  Falta clareza, mas as ambições continuam amplas e satisfazem os desejos da minoria. Há um interesse grande no convencimento da maioria. Um sistema de mídia que derruba, coage. Na confusão, aparecem salvadores, o riso de Temer não descola, absurdos são ditos sobre a pedagogia de Paulo Freire, fragmenta-se para dominar. Maquiavel sempre vivo.

Quando se questiona, se temos saídas, fico meio sem graça. Gostaria de vê-las, porém há excesso de sombras e poucas luzes. As acusações não cessam. O medo se generaliza. As aprendizagens trazem  certa animação. Ocupam-se prédios públicos contra os desgovernos. Uns negam a legitimidade do movimento, outros afirmam a sua necessidade. Nas incertezas, torcer por uma homogeneidade é um devaneio. Além de tudo, o diálogo e as diferenças fortalecem políticas, desde que os cinismos se desenganem. No entanto, eles permanecem, possuem lugares no discurso de intelectuais, justificam sobrevivências.

As crises movimentam ou podem nos levar para o pântano. A história voa e dança. Não há paralisia e o ânimo não deve adormecer. Os impasses são profundos. Nunca vi tantas dúvidas e tantas crenças juntas. As orações estão firmes, vencem eleições. Até onde irão as preces associadas às ganâncias do capitalismo?  As pessoas querem certezas, promessas de caminhos afortunados e se agarram nas palavras proféticas, enquanto outras se inquietam com a ideia da escola sem partidos. Muitos fantasmas, poucos anjos e uma esquizofrenia sutil perdida em cada praça e esquina.A política se ressente das contemplações. Já que tudo mira o pragmatismo como transcender o aqui e agora?

Quem acredita que o futuro  será solto? A política se entrelaça com a religião, porque o sagrado e o profano estão estimulando as simulações. Seria uma pós-história? A verdade fica dúbia na rebelião disfarçada. Ela ultrapassou  encantos filosóficos, correu para o mercado. A quantidade tem feitiço, impressiona, seduz. o império dos números que não quer contar história, nem subtrair privilégios. Não se incorpora o ânimo coletivo, quando a lógica da acumulação permanece ocupando a ousadia de quem se sente arrastando o mundo.A vida, que deixa de ser contada, que se esconde no concreto, pode ser o anúncio do caos final.

É escorregadio imprimir horizontalidades, onde a aridez anula o afeto na ilusão de que se destrói o inimigo. Cada vez que o individualismo se espalha, se sofistica, as ambições afirmam seu lugar. A cena é reapresentada como um passado congelado. Rasgar o tempo é fraturar a memória. A simultaneidade toca no sentido de que mudança se alarga quando a rapidez perde seu valor. Nada se sedimenta na velocidade sem rumo. A moradia, sem as portas entreabertas, é sinal de que as prisões estão cheias. Mire-se na lenda da ressurreição para não se afundar  e expulsar o destino da história. Narciso contempla seu suicídio.

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