Não esconda o amor no silêncio do coração

 

O amor só tem sentido se recíproco, mas a reciprocidade não significa igualdade. Trata-se de uma reciprocidade na diferença, como o homem é diferente da mulher, o velho do jovem, o mestre do aprendiz, etc. Cada um ama sendo si mesmo e realizando-se. Cada um dá e recebe, o que dá é diferente do que recebe (Marcel Conche). A reflexão do filósofo francês deixa  verdades consagradas flutuando. Afirmar a existência de verdades consagradas para as relações sentimentais já é uma ousadia. A procura do outro faz parte da vida. A troca de energias traz ânimos e fortalece os encontros. O amor tem um percurso histórico, portanto é uma invenção humana, sofisticada e fundamental.

Pensar na igualdade é desafio. Ela não se mostra muito no mundo contemporâneo. Mas será que ela se fixou em outras épocas ou a cultura convive com as diferenças desde os primórdios? O conceito de igualdade é escorregadio. Na concepção do capitalismo, nas práticas das competições cotidianas, ele não resiste. Denunciam-se explorações até nas fábricas de confecções badaladas. Chegam a lembrar o trabalho escravo. Não fique perplexo, as relações sociais sofrem ataques de toda ordem, daí a dificuldade de firmar um equilíbrio.

Vamos agregar as diferenças. Retirá-las do contexto rígido da economia. Visualizar um mundo de hábitos que, nunca, se transformam está fora do ritmo do tempo. As transgressões aparecem. Desfiam o que parecia invulnerável. A diferença, numa  outra perspectiva, ajuda a atrair o diálogo. Atiça as curiosidades. Os ruídos instituem a busca de companhia, os olhos começam a sentir um brilho inusitado. Nem sempre a atração percorre seu caminho e chega aos extremos. Há desconfortos e frustrações. As diferenças alimentam, também, agressividades e desejos dissonantes. O espaço das conjugações do amor se torna, então, impossível.

Os sentimentos solidários envolvem cuidados. Aproximam e sossegam, quando simbolizam alegrias e enternecem as viagens do corpo. Há ligações com o sonho, enquanto figura maior da utopia. Nem tudo está na gramática do coletivo. O amor possui fortes singularidades. Alguns gostam de ressaltar seus códigos de magia. Não é preciso mergulhar em intuições divinas, para observar que os sentimentos desenham possibilidades e estimulam transcendências.O amor tem fôlego curto? Talvez, não. O amor sobrevive com riscos e projeções confusas? Talvez, sim. Não cabem, aqui, metodologias salvadoras.

A existência de diferenças sugere a extensão da autonomia, como uma abertura para compreender até mesmo o que nunca foi vivido. Portanto, não é engano desviar-se de certas racionalidades, quando o amor quebra o silêncio do coração. Sinta a voz de Billie Holiday, a quinta sinfonia de Mahler, a cena da neblina de Amarcord de Fellini. Escreva uma única história, apenas com palavras que aquecem  certezas, mas se desfazem de qualquer noção do efêmero. O amor não se funda sem leitos e não coloca a cabeça em ombros desfigurados. Na sua atmosfera, Está-se fora da cotidianidade da vida, numa espécie de jubilação e de êxtase sensorial (Marcel Conche). Ele se confronta com a incompletude, porém não ultrapassa os limites das soberanias do tempo. Traduz significados, como a  imagem do texto. Adivinhe…

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