Não estranhe os descompassos da vida

Pensar faz parte da trajetória humana. Esquecemos, às vezes, que a imaginação deve ser acionada. Ela tem intimidade com a sensibilidade e nos ajuda a ver outros mundos. Não adianta organizar um álbum de fotografias, achando que aprisionou a realidade e guardou as lembranças do passado numa imensa e articulada galeria. O real é um dos desenhos da ficção ou a ficção é um dos desenhos do real? O certo é que nossa capacidade de inventar é inesgotável. Ultrapasse os limites do individualismo, não fique morando na imagem de um único espelho e contemplando, apático, o movimento das pessoas. Avalie a quantidade de segredos e de frustrações que alteram o tique-taque dos relógios governantes dos desejos.

Não estranhe as surpresas. O tempo passa, mas a vida é sempre avassaladora na sua sede de formatar gramáticas e geometrias. Não se fixe em idades especiais ou experiências definitivas. Há lugares para seleções, momentos onde o esquecimento se torna soberano. Não se descuide das semelhanças, dos retornos, dos escorregões. Não acredite muito na permanência das simetrias. Nada como saber visualizar, sem sustos, as sinuosidades. Os abismos não são fantasias cartográficas e os vulcões dormem por uma questão estratégica. Um dia, acordam e a terra se amedronta com as turbulências interiores e furiosas.

Nosso olhar nunca consegue penetrar no âmago das coisas. A cultura vive do transitório, embora tenha seus sossegos. Difícil é compreender a finitude, o grande jogo que compõe o universo e manter firme o ânimo. Não é à toa que a sociedade se enche de produtos e promove rituais de consumo. É uma fuga, com máscaras coloridas de alegria. Sobra a fragilidade, disfarçada e traçada com riscos acidentais. Por isso, tudo é possível. Aparecem as guerras, as crenças, as amarguras, os brinquedos eletrônicos e nós o que queremos? Perguntar é um ofício, responder uma especulação. Os profetas existem para fermentar ideias de futuro.

Portanto, não se acanhe. Signifique cada instante, não julgue o outro o inimigo número um e não se empolgue com as infantilizações das TVs nos dias de domingo. Divirta-se, mas não se transforme numa peça anônima no meio da massa. O cuidado entrelaça-se com a astúcia, uma forma de defender-se das armadilhas dos vencedores, com seus gigantescos esquemas de poder. Com todas as adversidades e paradoxos, a história não recua e é uma invenção humana. Não caiu do céu por causa do delírio dos deuses. Construímos as sociabilidades e suspiramos. Não há razão para perpetuar os arrependimentos.

Na dimensão propriamente imaginária, a existência é significação. As significações podem ser demarcadas, mas não determinadas (Castoriadis). O espaço da  improvisação não é escasso, nem negativo. As significações tocam na interioridade, mas também se diluem no coletivo, estimulam conversas e fazeres. Mesmo que a existência da barbárie assuste, releia Walter Benjamin ou escute um concerto de Vivaldi. A arte nos mostra dimensões inusitadas, desmonta pragmatismos. A estética da vida é deslocamento de emoções e não apenas arquiteturas modernistas consagradas pelo mercado. O visível não é tudo. Caminhe pelos labirintos, com olhos fechados e  imaginação solta.

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4 Comments »

 
  • jailson disse:

    Mago,
    Ou eu e todo mundo é previsível, ou esse texto de hoje estava escrito pra mim.
    As coisas aqui, do coração e do cérebro, estavam precisando de uma trilha de palavras pra poder descortinar caminhos. Encontrei tudo aqui. Não é sempre que isso acontece. Abraço, jailson.

  • Jaílson

    Grato pelas suas palavras, com sempre afetivas e próximas. Espero que sua trilha se abra com muita energia. Tudo caminha e se movimenta. Dança.
    abs
    antonio

  • Zélia disse:

    Amei!

  • Zélia

    Grato.
    abs
    antonio

 

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