Descole-se: os anjos usam motos velozes

Confiar nas utopias se tornou uma crença, pois os lutadores estão caindo na lona. Proclamaram-se revoluções, refizeram-se liberdades, esconderam-se violências. A chave da porta principal está perdida. A sociedade aumenta sua população sem encontrar regências harmoniosas para sua administração. Sacudiram os sentimentos no ar, em nome de razões ditas esclarecedoras. Os sistemas se implantaram buscando o escudo das palavras indiscutíveis. Mas se vive no balanço do trapézio no circo obscuro da hipocrisia. Temos destinos ou possibilidades de desmanchar os estragos? A rebeldia não se foi, mas se fragiliza.

Observe como as lideranças cínicas mudam suas armaduras. É importante não cair na ordem e no progresso. O século XIX produziu críticas aos valores decadentes. Não esqueça, porém, que o capitalismo se fortalecia e o utilitarismo ampliava seus espaço. A contradição não é uma exceção, nem mora em tempos remotos e tardios. Prometeu desafiou os deuses, os operários são explorados, os políticos renegam a ética, a imprensa abusa do sensacionalismo. As serpentes habitam o mundo com esperteza.

Ver a história com uma escada que leva ao céu é uma mistificação vendida e consagrada pelos que desprezam o humano. As quedas acontecem, os sonhos não se largam, os gritos registram agonias. Mesmo que os impasses empurrem para o abismo, há planícies que não foram conquistadas. Há Doria, Moro, FHC, Suplicy, Cunha e tantos outros. A multiplicidade é um sinal de insegurança. Nem todos estão no barco do conformismo,  nem inventam reformas opressoras. No entanto, o discurso de felicidade é traiçoeiro e convence.

A incompletude mostra que a cultura agiliza soluções para superá-la com velocidade. Não há homogeneidade que  garanta  projetos de mudanças efetivas na sociabilidade. Tudo está com uma imagem de ruínas. Ande pelas ruas, veja os programas de TV, escute as falas dos governadores, analise a presença da polícia no combate às drogas. Você tem escolhas, a liberdade brinca, mas com cercos permanentes. A incompletude sinaliza que o absoluto é uma lenda sinistra. Aprisiona a imaginação e protege militâncias atormentadas.

A história não pode se desfazer dos limites. Eles trazem as regras. Elas dependem da nossa s ações. Hannah não deixa de ressaltar a condição humana, de saltar impasses.Os conflitos agudizam perdas. Visite o passado: os romanos dominaram o mundo, o Vietnam derrotou os Estados Unidos, as religiões promoveram guerras, o terrorismo mata inocentes. Quem se encontra com a verdade? Pensar uma história com uma paz firmada, sem hesitações, seria sair da órbita. A luta cotidiana ajuda a diminuir as dores. O sempre e o nunca são palavras perigosas num mundo de suspeitas e de profecias. Descole-se, peça carona nas motos dos anjos.

 

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