Não se desfaça das narrativas

O tempo histórico traz reflexões. Engana-se quem pensa um passado morto ou não observa os diálogos entre as diferenças. Narrar é sempre uma ousadia, uma descoberta, um ruído. Surpreender-se com as sombras do vivido não é uma agonia, mas um impulso para abrir brechas.Sentir a reinvenção, movimenta a história e levanta identidades que pareciam adormecidas. Não há como fixar uma narrativa definitiva. Há várias e inesperadas linguagens. Elas dão ritmo a quem se nega a repetir que as portas estão fechadas e omitir-se diante dos chamamentos da ação. Por que não se lembrar de Hannah Arendt? Por que não se vestir de palavras que buscam o mundo e reafirmam suas fantasias?

Quando há deslocamentos no contar a história, ela se estica. Mesmo que os espelhos se quebrem, sacudir as diferenças e mudanças históricas evita que os dogmas sejam soberanos. Na sociedade que celebra o disfarce, a narrativa perde seu ânimo e ressalta apenas o acontecimento como um congelamento de pecados sempre presos a sentimentos de culpas terroristas. O importante é que as narrativas se cruzem, se entrelacem, não descansem, inquietem os sentimentos, mesmo que a respiração incomode a necessidade do silêncio. Se não se escuta, a música denuncia o cansaço e desenha o destino.

Penetre na saga de Cem Anos de Solidão. São múltiplas magias que ensinam as ambiguidades e descortinam as insistências para que a vida não estranhe o acaso. A narrativa enfrenta a morte ou anuncia a sua aproximação. Quem conhece os primeiros suspiros ou suspeita dos seus absurdos? Se mito não se foi, alguma coisa indica que estamos sempre buscando significados, carregando pedras como Sísifo ou enlouquecendo diante das armadilhas. Há fugas. Édipo conseguiu encontrá-las? Não acreditou que há condenações e subjetividades transtornadas pelo trágico que assusta e desmonta.

Mas a narrativa é um sinal de reconhecimento ou mesmo de que as aventuras foram vividas e estão guardadas na memória. Portanto, as revelações podem configurar encantamentos tardios que misturam risos com lágrimas. Não ponha o ponto final no que escuta, nem trave o som da sua última lamentação. As narrativas não devem ser breves. Não se limitam, nem traçam fronteiras. Elas convivem com as agonias dos outros, viajam nos seus trapézios, relembram nossas finitudes, deixam as angústias de Narciso soltas num labirinto anônimo. O que você narra é o seu espelho, a imagem solene de que a cultura funda-se no que foi dito ou mal dito.

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