Amores, paixões, disfarces, tropeços

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O amor sacode a emoção. Não se pode negar que atua de forma marcante na vida. Mas há dificuldades de aprofundá-lo quando a sociedade se veste de mercadorias e celebra cinismos afetivos. Usa-se e abusa-se de uma esquema de propagandas que idealiza os atos humanos. O amor termina se transformando num carro confortável ou num vinho prazeroso. Estimula-se a pressa. Pensa-se na paixão, nas viagens e se subestima as travessias. Não há como viver o amor na rapidez cotidiana das contas bancárias. O amor romântico se perde nas nostalgias mal resolvidas.

A sociedade não cessa de buscar variedades até mesmo nos sentimentos. É impressionante. Há uma epidemia de frase soltas. A forma domina, brilha, os dominantes pouco se ligam na sua proposta. Querem inquietar. Portanto, fica impossível perseguir a verdade. Não estamos no tempo de Platão, mas temos ministros que soltam reflexões nada históricas. Tudo se espetaculariza. Para aonde a sociedade caminha com tantas emboscadas? O império da lei tornou-se escorregadio. Ganha o sucesso, a imagem, a fala rasa. O jogo das aparências satisfaz e consegue calar os ruídos. O reino do faz de conta prevalece, para que então acudir as virtudes?

Não se engane com as manipulações. É preciso tempo. O sentimento atrai e trai. As ilhas de felicidade registram eternidades que não existem e paraísos de papel. A confusão entre amor e paixão lembra o romantismo. Há lacunas no humano. Não tem como apostar em pares perfeitos, sem desconfiar na força dos escorregões cotidianos. Vale o momento? O abraço passageiro? A transa rápida e cega? O desmanche não é ficção. O passado é empeirado, para que a dor não suja e mostre o desmantelo. A festa espanta os males por instantes. Um refúgio mal sucedido;

Os finitos são finitos. Há um fantasia imensa que deseja apagar as contradições. A cultura nos traz saídas que logo se anulam. Por isso, é fundamental não riscar do mapa as cartografias dos labirintos. Os deuses também perdem perdão. Falam de generosidades, mas o mundo responde com genocídios. Não adianta deixar de lado a miséria e compô-la como um dado fortuito do capitalismo. Observe as datas, porém olhe como as ruas estão habitadas, como faltam espaços para aconchegos, como  disfarçam o desequilíbrio. O natal é festa do comércio, cheia de sutilezas e estrelas de metal. O amigo é secreto, a família troca presentes. Tudo se dissolve na madrugada do sono induzido.

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1 Comment »

 
  • Rivelynno disse:

    “As ilhas de felicidade registram eternidades que não existem e paraísos de papel”. Acho que esta frase sintetiza bem um modo, um modelo, um protótipo de sociedade vivenciado por nós nos dias de hoje. Almejamos a felicidade com base na suposta felicidade do outro, nas redes sociais, nas revistas, nos jornais, na tevê, paraísos artificiais de papel, frágeis, de aparência a adornar um tempo, um período eterno. Sofremos, choramos e desejamos aquela felicidade etrnizada nas fotografias, uma felicidade que nunca fica triste, que parece possível e acessível ao outro e nunca a nós mesmos. Quando estudamos e valorizamos a história dos afetos passamos a nos permitir entender que a felicidade e a infelicidade, o tédio e a alegria são dualidades que nos acompanham e nos tornam humanos, precisamos delas para crescermos e amadurecermos como pessoas historicamente localizadas, produtos culturais reflexos de nossas vivências e experiências…

 

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