A complexa cartografia instável dos sentimentos

Exalta-se, quase sempre, um discurso que não cuida dos afetos. Há um sentido criado pela dominação para justificar as relações sociais existentes. A ordem é não perder tempo, confundir felicidade com eficácia, equilibrar-se em regras rígidas e esconder as emoções. Toda modernidade registra polêmicas, porém ganha quem exerce o poder com promessas de resolver os obstáculos econômicos. O bolso significa a porção maior. Isso não impede que os sentimentos sobrevivam. Nem poderia. Somos múltiplos, dependemos de sociabilidades, não plantamos solidões inacessíveis.

Não é à toa que surgem doenças, antes desconhecidas, ligadas aos descompassos afetivos. Não bastam as realizações materiais para encontrar a rota do bem-estar. A racionalidade tem uma força incrível na gestão pública. Ela se estende, uniformiza projetos, disfarça diferenças. Não há negar a dificuldade de superar os obstáculos em sociedades carentes, marcadas por desigualdades contínuas. Incentiva-se o consumo que é acompanhado do aumento das dívidas. O mercado mundial passa por sufoco. Os poderosos também não fugiram das adversidades mais radicais. Procura-se vender o otimismo, mas a paisagem mostra vulcões fervendo.

Ninguém pense que as tensões não repercutem nas cartografias dos sentimentos. O homem é um animal complexo e não um ser, apenas, ambicioso e encantado com a riqueza material. Não é necessário saber acadêmico para observar fragilidades que acontecem no dia a dia. A perda do emprego, a fragmentação da família, a pressa em resolver problemas, a quebra das tradições, tudo isso atinge a emoção. A depressão e ansiedade aumentam a venda de remédios paliativos. As diversões eletrônicas inventam saídas para amenizar o cansaço e o desestímulo.

O pior é o preconceito. Muita gente, mesmo cercada pela dor, ainda acredita que é na melhoria das condições materiais que a vida se realiza. O desgaste aprofunda-se, pois existe negligência em cuidar das relações afetivas. Insistimos que o pragmatismo é avassalador. Compreende-se pouco que a complexidade requer olhares que não se restrinjam ao acúmulo de atitudes individualistas. Esquecemos que a sociedade se move com o esforço coletivo. Ele não cresce se o ânimo diminui ou se entusiasma com as vitórias da técnica e a vigilância da burocracia.

O mundo enche-se de desconfianças que desmontam as cartografias dos sentimentos ou as torna insignificantes. A política perdeu o alvo da cidadania. Virou uma corrida ao cargo, um desmonte constante de relações na busca de mecanismos que assegurem votos e privilégios. Não queremos afirmar que convivemos no caos nunca visto. Os impasses não se afastam da história. Não é aconselhável, no entanto, colocá-los em vitrines, como mercadorias. Os sentimentos ajudam a superá-los, desde que vividos sem banalização, sem datas comemorativas exaustivamente lembradas.

As armaduras e as armadilhas possuem lugares especiais nos esquemas de dominação. É confrontando que se apagam as apatias, que se dilui o marasmo. Nada escapa das ambiguidades. Mergulhamos em oceanos que elegemos como propriedades particulares. A cartografia dos sentimentos é construída com  articulação. As perdas parecem ser de alguns, mas terminam sendo de todos. Afundamos, porque cultivamos as aparências, anulando as incompletudes históricas. Desconsideramos os mapas dos labirintos e rascunhamos as memórias.

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4 Comments »

 
  • Amanda Oliveira disse:

    Gostei muito do texto. Conseguiu entrelaçar conteúdos vastos de forma completa e clara. É exatamente isso que vivemos;a essência perde,todos os dias,para o que está “fora”.Valoriza-se mais o que nos torna mais aceitáveis socialmente do que aquilo que edifica a verdadeira autenticidade,felicidade.Tudo isso faz com que NÃO façamos de nossas vidas ALGO DE EXTRAORDINÁRIO e,assim,tornamo-nos todos iguais,uns mais que os outros.As máscaras edificam a hipocrisia social e os frutos de tudo isso constroem vidas inautênticas,vazias e infelizes.

    “Mundo mundo vasto mundo,
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
    mais vasto é meu coração”

  • Amanda

    Suas considerações são muito pertinentes. Agradeço sua leitura e seu olhar sempe sensível que nos ajuda a refletir. No diálogo, vamos tentando fugir das mesmices. Nem todos ficam na apatia. Há espaços para que o sentimento se espalhe. O poeta sabe o que diz. Somos múltiplos.
    abs
    antonio paulo

  • Neide Maria Sampaio Peixoto disse:

    Antônio Paulo Rezende e Marcelo Rezende, cheguei agora à pouco de um grupo de estudos sobre Educação Integral e o que primeiro li foi ” A Completa Cartografia Instável dos Sentimentos e senti que se esse texto tivesse sido lido e discutido lá ,teria sido maravilhoso. A maioria dos componentes do grupo são do Bairro Escola, da Diretoria de Tecnologia e Cultura da Prefeitura de Recife, mas o grupo tem arquitetos, como o Noé que hoje foi de fundamental importância na discursão do espaço físico da escola e do bairro como espaço educativo, já tivemos a presença de Jomard Muniz de Brito que também muito enriqueceu os diálogos levando mais ou principalmente a questão do desrespeito ao ateu ( A inversão) e as religiões…Bom, contudo, gostaria de convidá-los para a próxima reunião que é sempre na última quinta de cada mês e será em 6/Setembro. Seria uma grande satisfação. Um Abraço e parabéns pelo texto!

  • Neide

    Grato, pelo convite. Qualquer coisa meu e-mail é cielo77@uol.com.br. Realmente, é um debate que merece destaque. Vivemos dos sentimentos, mas fugimos, muitas vezes, de vê-los com mais cuidado.
    abs
    aqntonio

 

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