Nas navegações do tempo os enigmas não se calam

Na imaginação, podemos flutuar à vontade. A vida pragmática dificulta a existência de uma criatividade mais solidária. Mas temos que nos defender. Negar a competição é uma cegueira perigosa. Vamos seguindo, com domínio limitado das astúcias, sabendo que mudanças ocorrem, sem que haja sempre controles rígidos. Não pense que os poderosos estão articulados com segurança. A dança é rápida, não há um ritmo único, as surpresas costumam derrubar arquiteturas imensas. Nem tudo é previsível ou melhor quase nada é previsível.

A dimensão da multiplicidade é constante. Tem razão Guimarães quando afirma que viver é perigoso e que o sertão está em toda parte. Quem não compreende as metáforas se inquieta e se perde. Ninguém está longe das desconfianças. Os destinos são ficções. O que sobrevive é o vaivém. O passado se mistura com o presente, as pessoas tropeçam e levantam-se atônitas. Há quem permaneça perplexo sem forças para navegar.

Portanto, não é novidade se defrontar com enigmas. Seria um grande equívoco apostar que, um dia, a transparência comandará cada ato e cada sentimento. Fazem parte da história os desencontros. Muitos refletem sobre desafios, porém não trazem admiração . São considerados loucos. Séculos depois suas ideias ressurgem como magníficas. As metamorfoses não se cansam de se entenderem. O futuro puxa o tempo, sem querer revelar respostas.

É difícil costurar a história, ter espaços para manter silêncios. Parece estranho dizer, contudo o mundo não cabe no mundo. Homens e máquinas se abraçam ou provocam genocídios. Renovam as numerações das eras. Isso não significa revolução ou anúncio de que  aprendemos com as travessias. As outras margens dos rios são tão diferentes, não adianta inventar semelhanças  e cruzar caminhos.

No entanto, estamos sempre envolvidos por relações. A solidão não é uma companheira estática. A reclusão quebra afetos que determinam leveza e necessidade de buscar os outros. A solidão e a saudade são sentimentos que agitam histórias. Como apagá-los se o tempo não suporta a inércia e convive com as ilusões?  A saudade tem os riscos fortes do que passou, é o sinal de perdas inevitáveis. A solidão é escuta atenta, cuidado, observação.

Os sentimentos não se vão da vida. Compõem juntos tempo de sinfonias que desenham sonhos ou escrevem pesadelos. A vida social é um  múltiplo diálogo com a complexidade. Os ruídos que tentamos sincronizar são traduções de tormentos, porém as aprendizagens se amarram nas experiências. Não existe cotidiano despido de controvérsias. A vida social está colada no outro. Quem alimenta as diferenças são as fugas, os exílios, os desamores.

As informações estão aí acumuladas.Pedem leituras, muitas vezes pertencimentos. A inutilidade e o absurdo também incomodam. Não é à toa que existem os divãs freudianas e o debate sobre o uso das drogas. Viver a história sem projetá-la é sempre um corte. Buscamos luzes. As navegações do tempo nos lembram que as faltas talvez acendam as culturas, salvando o humano de uma apatia sem fim. Segundo Fernando Pessoa Os deuses vendem quando dão.

 

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