Nietzsche: ansiedade, oportunismo, cultura

 

A história não requer confortos contínuos. Parece que é preciso que haja quedas. Elas se vinculam ao movimento de aprendizagem. A cultura traz invenções e toca nas sociabilidades mais permanentes. Isso significa dizer que há mudanças. Mas é preciso não confundi-las com progresso. Mire no século XIX. Observe as idas e vindas dos pensamentos, os delírios de Comte e o impacto da crítica de Marx. O capitalismo desenhava contradições. Nada de riqueza para todos. A história é campo de luta, de sonhos, de divergências, de labirintos sem fim..

Freud apontou paradigmas que chocaram os resistentes. Havia entusiasmo com as técnicas, com o domínio dos europeus, com o surgimento das ciências. Freud levanta a poeira. Lembra que somos animais, buscamos prazeres, enfrentamos competições. O amor, tão pregado pela religiões, se abala com as vinganças e a existência da mais-valia. O narcismo cega, envaidece, derruba. A história não cansa de mostrar que há curvas. O abismo é uma metáfora usada para assinalar o fim da ilusão. O conceito de decadência se choca com ideia de progresso.

Ninguém tinha bola de cristal, porém as tensões nunca deixaram de existir. O colonialismo estava firmando mercados e explorações. Nietzsche denunciava a crise de valores, desconfiava dos discursos exultantes da razão. Não esqueça que os românticos já colocaram reflexões importantes. A modernidade tinha sua nudez revelada. Não era a armação do paraíso como os fanáticos , ainda hoje, pensam. A sensibilidade exercita outras formas de ver o mundo, contraria a aridez do descartável das mercadorias.

Muito do que foi dito por Nietzsche está na atualidade. Suas suspeições confirmam-se. Numa sociedade guiada pelo pragmatismo, não faltam os que alimentam navegações oportunistas. Na época em que as crises se aprofundam, a cultura ensaia seus bailes de máscaras. As sombras ameaçam, mas há quem manipule, quem se abrace com os números e montem lojas de consultoria para livrar o sufoco. Não se trate de busca soluções coletivas. Prevalece as armaduras dos que concentram riquezas e debocham da miséria dos outros.

Nietzsche não se empolgava com os dogmas. Não fugiu das reflexões mais agudas que derrotavam a vaidade dos dominadores. O poder é cru quando se alicerça na vontade de reproduzir privilégios. As guerras mundiais aconteceram, o imperialismo empurrou os mais fracos, o nazismo assustou o mundo. Sofrimentos se espalharam. Não adiantam as lições? A razão é útil para oprimir e iluminar. Quem apagar a arte, a imaginação, censura a criação. O culto ao planejamento impede que o vício da ordem e do progresso se desmanche. A cultura possui infernos que cortam necessidades das maiorias. As dores do mundo são fortes, contudo a vida continua. O fôlego não morreu.

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