Ninguém aposta nas certezas de um destino?

Gosto de caminhar. Não como um exercício, com hora de partida e de chegada. Dispenso relógio. Sou um observador, daquele que se prende aos detalhes. Como não dirijo automóvel, circulo por ambientes de andarilho. Presto atenção às conversas, gestos, rostos. A curiosidade é silenciosa, mas atenta e parceira de imaginação. Nada de se retringir ao instantâneo. Cada ato humano se projeta. A idéia de destino não está abandonada.

Os mitos antigos continuam atiçando nossas mentes. Tinham vidas de aventuras e lutavam para desafiar os desenhos das suas cartografias. Os exemplos são inúmeros. As história de Prometeu e Édipo correm o cosmo e entusiasmam psicanalistas. Ficam como arquétipos. No mundo das máquinas, as permanências da fantasia  são visiveis. Por detrás das novidades, guardam-se lembranças de outros tempos. Quem pode negar os entrelaçamento da música de Piazzolla com as dissonâncias do jazz ou a argúcia de Bach? Quem se recusar a olhar para o passado, despreza o valor da continuidade. Zerar as tradições é uma armadilha.

A história é mudança ? Dúvida pertinente. As transformações e as rebeldias se entretecem com as nostalgias, mas também fundam outras arquiteturas para os labirintos humanos. Os dribles de Pelé, sua intuição diante do gol, sua cabeçada certeira não ficaram congelados. Com os recursos teconológicos, a memória enche-se de complexidade, porque as informações são muitas. Qual a melhor escolha? Os mitos contemporâneos seduzem, merecem narrativas, mesmo que se nutram de outras linguagens.

Portanto, o exemplo ainda é espelho. Os mais novos possuem recursos recentes, para recuar no tempo e isso renova concepções. A ansiedade e o tédio, aparentemente tão antagônicos, se tocam. Muita forma derruba a paciência. De repente, o estranho torna-se comum e não temos como entender o eixo da tanta procura. Por isso, nas minhas andanças não elejo a pressa, nem tampouco elogio os que se pintam sempre com a fama.

Lembr0-me que Didi, jogador excepcional, dizia que treino é treino , jogo é jogo. Mostrava o seu interesse e seu estímulo. Tratava a bola como ninguém. Afirmava ter com ela uma relação de amor. Os cuidados eram mútuos. A bola não iria traí-lo, seu destino de exímio cobrador de faltas estava definido. Assim, a futebol rende graças aos feitos do autor da folha seca que desafiava qualquer geometria cartesiana e tumultuava as expectativas dos goleiros.

As falhas comprovam que, às vezes, há descontroles. Não somos, sempre, os mesmos. Maldizemos dias de sol ou discordamos das cores que, antes, festejavam nossos delírios estéticos. Quando observo o movimento e falas das outras pessoas, as interpretações das sensibilidades  se interligam. A antipatia danifica a estabilidade afetiva, porém é impossível gostar de todos. Qual razão das energias chocaram-se? Isso não desmancha o traço do destino? Não remove as certezas e as convicções? Apostar que os dias passam, e minha vida não remove os ruídos e os silêncios, firma o desejo de conhecer. O outro mora dentro de mim. Com destino ou sem destino, a minha narrativa nunca será solitária.

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