No meio das histórias e das palavras

Estou no meio da história. Quem não está? O calor é imenso. Entorpece. A tela do computador lembra papéis pendurados na máquina de escrever. É desafio constante, um deserto que brilha. As imagens nos cercam e as palavras se  encurralam. No entanto, não prolonguemos essa situação. Ultrapassemos as travessias acadêmicas sobre o significado e o significante. Ceder às tramas da tecnologia é, também, anemia crítica. Como esquecer os grandes mestres da escrita e suas lições, mesmo que as repetições se espalhem? A magia não desapareceu do mundo. Reinventá-la, sempre, faz parte do cotidiano, o torna mais suave.

Quem leu Octavio Paz se envolveu com encantos. Não fugiria do nomear. N’ O Arco e A Lira, ele dialoga com fantasias surpreendentes, nunca como mensageiro das verdades perenes. Firma pactos com geometrias sinuosas. Legitima a palavra e celebra a sua instituição. Ela garante a sociabilidade, estimula a imaginação, não é, apenas, um traço perdido do pecado original. Anuncia saltos e imperfeições. Engana , dança, levita. Os anjos a festejam em suas moradias misteriosas. A modernidade se entrelaça com a solidão e Paz navega na nostalgia da comunhão.

Pamuk descreve Istambul, com o cuidado de um pescador de pérolas. Não tem pressa. Sua palavra é preguiçosa e sutil. A literatura o contagia. O delírio é para poucos. A sabedoria e a experiência o acompanham, sem impaciências. Decifra, sofre, redefine. Seu texto tece dramas,  a profundidade do passado e suas múltiplas interpretações. Possui arquiteturas de labirintos singulares, com entradas e saídas majestosas. Consegue desenhá-los como artesão. Borda, costura, remenda, anima, desespera. O livro é negro, vermelho, cinza, azul… Todas as cores se inserem nos ritmos que assombram e sacodem as energias de quem lê e transcende. Pamuk é incansável, sabe que a vida vale uma única palavra que ainda não foi desenhada.

Italo Calvino parece, às vezes, aprisionado por exatidões. Olha os detalhes e os desfia. Conversa com a erudição mais longínqua.  Abandona seu instante, pois desconfia da linearidade. Admira  os mitos. Passeia, também, pela fantasia. Namora com a síntese, com elegância  e simplicidade. O seu leito é aquecido pelas fábulas. Quem não se apaixona pelas suas cidades invisíveis e as obsessões do senhor Palomar? Quem não se deleita com as reflexões das  Seis Propostas para o Próximo Milênio? Calvino é senhor da inquietude, porém junto com a beleza e os arranhões do infinito.

Há tantos mestres que seria impossível acolhê-los na plenitude. Guimarães,  Mia Couto, Drummond,  Borges, Rimbaud, Eduardo Galeano, Benjamin, García Márquez, Auster … Cada um com suas vestes, seus espelhos, suas traduções. As sensibilidades não se esgotam, abrem os olhos e enfeitiçam. Se tudo testemunhasse, apenas, a aridez, o corpo secaria e o fluxo do viver não atingiria a mais frágil efemeridade. O mundo é vasto, ironiza a incompletude, para estender o manto da cultura. Sem aconchego, o sangue frio congela o coração. O que desadormece não é pesadelo, nem  figuras do medonho. É o oceano de Ulisses que guarda os cantos das sereias e prepara a narrativa primordial. Embarque, não precisa de identidade.

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6 Comments »

 
  • ana cristina brandim disse:

    A grande contribuição das palavras, e aqui em especial da literatura, é mostrar que a sensibilidade é uma das formas possiveis de tocar, de transformar o Outro, ou como Pamuk escreveu, em seu agradável discurso literário denominado A maleta do meu pai “a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro”.Penso que é isto que vc faz Antonio Paulo, com sua astúcia, de quem sabe que as palavras e as imagens podem tocar e sensibilizar, muito mais, do que nossas rarefeitas razões.

  • Ana

    Grato pelas reflexões. Bom contar com sua sensibilidade e apareça sempre.
    abraço
    antonio paulo

  • Vítor Jó disse:

    Professor, o senhor já leu esse site: http://www.overdadeirocheguevara.blogspot.com/ ?
    É curioso. Nem todas as considerações e colocações eu pude averiguar, surgiu-me algumas dúvidas até, mas não deixa de ser… Curioso.

    Abraço

  • Vitor

    Vou dar uma olhada, para ver com estão lá as informações. Guevara é polêmico e circula muit coisa sobre ele. Grato.
    abraço
    antonio paulo

  • Christiane Nogueira disse:

    A história é feita de fatos e palavras. A escrita histórica carece de sensibilidade, da mesma forma que a literatura. E esta, por sua vez, ainda precisa do conhecimento histórico para tecer suas tramas e dar alma as suas fantasias, pois nada se cria do vazio. A imaginação caminha lado a lado com os acontecimentos da vida real e, por ser abstrata, procura formas de fugir dessa realidade ou, pelo menos, da sua face mais dura. Como sobreviveria a humanidade sem os momentos de delite?

  • Crhistiane

    Soltar a imaginação é uma forma de ver outras formas e sentir a dimensão do prazer. A mesmice é grande e sufocante.
    abs
    antonio paulo

 

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