Nomes, ritmos, invenções e memórias

Astor Piazzolla é um das mais notáveis compositores  do século XX. Argentino, fez uma revolução no tango tradicional. Não foi fácil. Sentiu-se um exilidado na própria terra. Recebeu críticas de Jorge Luís Borges e outros intelectuais e as respondeu com a autoestima doendo. Hoje, está consagrado, mas já não pode assistir ao êxito mundial das suas belas músicas. Os arcanjos o acompanham na eternidade.

A teimosia ajuda, nem sempre desmancha planos. Joyce escreveu um romance, Ulisses, que, ainda, é lembrado com muita admiração. Uma obra-prima que mudou as formas da literatura. O mesmo se pode dizer de Guimarães Rosa com seus escritos fabulosos. Causou surpresa, desmantelou paradigmas, mas terminou encantando com suas histórias.

No futebol, sobram aventuras. A polêmica sobre as gestões táticas, dos chamados professores, parece infinita. Muitas instruções, medo imenso de perder,  fragilizam a possibilidade de surgir os talentos. O jogo se amarra  e o gol é esquecido. A sonolência impera.

O ritmo de Piazzolla e sua ousadia quase não existem nos times de futebol da atualidade. Vez por outra, a memória nos traz o passado das grandes partidas e os feitos dos jogadores que não se cansavam de  inventar passes e tabelinhas. Não custa acionar a saudade e lembrar que as dificuldades também estavam presentes.

Pelé foi a Copa muito jovem. Seduziu os europeu com suas invenções fantásticas. Chorou quando se tornou campeão. Dunga vetou talentos, que apareciam, e firmou uma seleção cheia de compromissos de lealdade, sem opções para transformar o rumo das partidas. Alegou imaturidade dos preteridos e cantou coerências.Pagamos caro pela sua intransigência.

Didi cobrava faltas, como ninguém. O autor da famosa folha seca deixava os goleiros sem opção. Poucos sabiam que fazia tal magia, porque  tinha problemas físicos que o impediam de apostar no comum. Fez da diferença uma marca. Descobriu um caminho.

A cultura vive de transgressões. Uma ordem completa, sem lacunas, seria o fim de tudo. Nem Deus suportaria tanto tédio. A capacidade de criar, de desfazer, de desfiar verdades, a imaginação aquecendo as idéias, nos conduzem a delinear outras alternativas e transcender momentos e cotidianos.

Quando se apresentam muitas condenações para o novo, resta manter a desconfiança e se recordar dos tantos feitos guardados com cuidados. Eles ensinam. Não precisa de elegê-los como repetição indiscutível ou conservá-los sem o propósito de atiçar reflexões.

 A reinvenção é a saída dos labirintos sufocantes da mesmice. Os medíocres gostam dos discursos de argumentos lineares, ocos e desligados de qualquer ritmo renovador. Na ação da memória, não estão apenas as lembranças das tradições carcomidas e autoritárias. O diálogo, entre os tempos, desperta e desenha astúcias atraentes. A roda-gira, a roda é viva

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