Nos encontros da solidão e do mundo

Existem muitas dificuldades para compreender o que se passa. Não se trata de algo localizado, solto, escondido. A questão é decifrar a arquitetura que o compõe. Há busca de nomes para redefinir comportamentos. Volta-se ao passado, mas nem todos curtem a nostalgia, nem se jogam na complexidade do tempo. Há os futuristas, os que se perdem na desconsideração da memória. Sobram hipóteses e terapias. Apesar das multidões, a solidão é companheira, dorme no teu travesseiro. As conversas interiores provocam sustos. Somos animais sociais, porém desconhecemos o outro como digno da solidariedade. O mundo é uma mistura e seus fundamentos estranhos.

Uma atmosfera pesada visita manifestações e interrompe até divertimentos ou faz das manifestações um divertimento. A violência anda volta. As agressividades se sofisticam ou repetem ações pretéritas ? O diálogo passageiro não aprofunda o esclarecimento. Trocam-se opiniões. Na confusão geral, cada informação pode trazer um escândalo, avivar vinganças ou colaborar para apatias. Vive-se de datas, como se o cotidiano pouco representasse ou o trabalho assalariado mostrasse a nudez da escravidão. Estamos cercados de mercadorias, o consumo não se cansa de fazer ruídos ou arrumar seduções.

Não estou exaltando o pessimismo. Falo do que vejo, do que sinto, do que observo. Sei que há muitas lacunas, que não é possível desenhar a perfeição. Quem aposta num mundo sem crises, totalmente sintonizado? Ninguém está navegando, aqui, no mar do delírio, embora ele não esteja ausente. Talvez,a multiplicidades nos inquiete de forma radical. Inventamos e imitamos. As novidades possuem encantos, no entanto não resolvem os impasses, criam ilusões. Brincamos com quebra-cabeças com peças cinzentas e desfiguradas. Deixamos algum dias as lembranças infantis?

O tédio se apresenta nos quartos escuros, na preguiça de ir para a rua, de imaginar o coletivo. A busca é intensa, ainda bem. Estamos construindo um outro mundo. É cedo para defini-lo, por isso os conflitos se ampliam ou os desamparos se consolidam. As transformações incomodam quando acontecem sem o mínimo de controle, Tudo se balança, como uma aventura com calendário improvisado. As gramáticas e as geometrias flutuam. A solidão é necessária para nos encontrarmos com o mundo. Queremos transparência e, impacientemente, esquecemos os ritmos do tempo. A dança da vida é descontínua e fragmentada, mas há pausas e fôlegos.

 

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