Nos sentimentos travessos do mundo

 

Inventamos calendários numa tentativa de conhecer melhor os malabarismos do tempo. Buscamos leveza, entender as multiplicidades que penetram nos instantes da vida. Mas os mistérios continuam. O domínio do tempo é desafio, não tem fim, se move com incertezas. Existem muitas regras, porém elas não testemunham que o controle faz parte permanente de cada história. Estamos divididos, contamos dias que parecem meses ou meses que parecem dias. O eco do acaso é medonho, mantém o desencontro.

As palavras narram nossas perplexidades. Ajudam a desanoitecer, brincam com sonho e pesadelos. Não há identidades fixas, significados interrompidos. Vagamos, divagamos. As palavras são espelhos, sem moldura definidas. Mesmo sem convicção, elas anunciam que houve um passado de comunhão, talvez um deus cheio de intenções mágicas. Tudo é possível, quando o quebra-cabeça traz peças de todas as cores

Não vamos dispensar as celebrações. O calendário está marcado por festas. Ela alegra as vitrines e fala de afetos efêmeros. O importante é disfarçar o vazio. Os movimentos ocupam sentidos diversos, querem desenham geometrias, sem aprisionar desejo. Somos parceiros das lacunas, nem por isso deixamos de beliscar eternidades. A imaginação é fértil, na dor e na comemoração. O ânimo é o desejo de que a possibilidade seja maior do que o caos, que o esclarecimento não se transforme em trevas.

Não há  sossego, apenas especulações. A política sacode promessas, renova discursos, quer convencimento. Está gasta, pois a grana circula com a rapidez que derruba éticas e amplia ambições. Se o capitalismo sobrevive, a desigualdade está por perto. Os mercadorias precisam de conflitos, de concorrências. As crises costuram a história. Podem ser radicais, provocar revoluções. Prevalecem as vantagens das minorias. A miséria persiste, traumatiza, descompõe sonhos, profetiza apocalipses localizados.

O texto mostra que as encruzilhadas estão espalhadas. As acrobacias garantem sociabilidades de enredos frágeis.É difícil construir uma coerência ou traçar os princípios das harmonias. Vivemos de cogitações. Perdemos os sinais das origens, as instabilidades não cessam de lembrar arquiteturas de abismos. O ponto final anuncia que prefere andar solto. Os sentimentos refazem as conversas do mundo. Sobram lugares para tristezas e desconfortos repentinos e silenciosos.

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