O afeto mal cuidado no reino das crianças

As leituras dos jornais têm um sabor especial. São muitas notícias, anunciando a diversidade do mundo. Exigem uma atenção cuidadosa. Podemos reler os temas e cair numa meditação silenciosa. Há condições de enganar a pressa e fugir da superficialidade das manchetes. O importante é observar a complexidade das relações. Elas se misturam com as ofertas das lojas mais famosas. Quem for curioso consegue criar diálogos incríveis. Nada está solto. As trocas existem, compra-se e vende-se, com insistência. Nos jornais, aparecem sínteses cotidianas que não merecem desprezo.

Os contrapontos me chamam atenção. Já se falam nos possíveis ganhos com as promoções do dia das crianças. Os cálculos antecipam as margens de lucro. Não faltam brinquedos. É uma preparação para as festas natalinas. Um ensaio geral que fascina os magazines. As contabilidades levam em consideração o preço do dólar, o poder do convencimento das crianças, a moleza dos pais. A objetividade é impecável. Faz parte das astúcias do capitalismo. Escapar do agravamento da crise internacional é o mandamento maior dos negócios atuais. Vacilar é fraqueza, segundo as ironias circulantes.

Se a corrida para as compras madruga, outras notícias não podem ser esquecidas. A violência contra as crianças não cessam. Os jornais descrevem crimes de pedofilia entre pessoas que se conhecem. As famílias servem de cenário para quebra de afetividades e destruição de valores. Há muito desamparo, pouca permanência. A sociedade fica perplexa, convoca psicólogos, formula questões. O difícil é olhar como cada um vem encaminhando suas conversas com os filhos. Qual o tempo que sobra? O presente sedutor não é um disfarce? Por onde se espreguiça a proximidade, a vontade de agregar, de escutar os incômodos e estimular as solidariedades?

Quem lida com educação e ensino percebe como as coisas andam soltas. Não se trata, somente, de violências. As urgências consagram utilitarismos, os abraços ficam para depois. Os meninos e as meninas são lançados no mundo com carências. São raras e honrosas as exceções. As escolhas visualizam que não bastam teorias, seminários profundos, argumentos racionais. A convivência cotidiana deve criar intimidades para queixas e até confrontos. O que domina é a indiferença, a velha justificativa da perda de tempo.

Portanto, o tráfico de drogas se alarga, os programas de TV exploram o consumo e criam modelos de comportamentos. Os responsáveis não se movem para animar as críticas. Jogam as dúvidas no lixo. As depressões começam a chegar mais cedo, o diálogo não se aquece. Tudo termina nas mãos dos especialistas, quando a necessidade afetiva demanda outras atenções. Livrar-se do sentimento de culpa faz parte dos jogos da cultura ocidental, sobretudo nos deslocamentos feitos para glorificar a produtividade. Os impasses continuam.

Aumenta o número de suicidios, as experiências não provocam curiosidade, desenham-se caricaturas do que é velho. A felicidade não é um bem material, de consumo datado. Temos lacunas e desequilíbrios. Ninguém pode se esconder das instabilidades. Não somos onipotentes. Mas será que não há espaço para redefinir valores e intelectualizar menos as estradas da vida? Qual é a cartografia que nos configura? Quem preserva as vestes da autonomia?

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6 Comments »

 
  • Terceirizar a gestão sentimental é mais simples de que organiza-la.

  • Emanoel Cunha disse:

    Fundamenta-se na modernidade uma sociedade que acrescenta em sua história um individualismo cada vez mais sórdido. Perante a toda sua complexidade adentramos num mundo onde o consumismo nos torna escravo de suas exuberâncias mascaradas e comanda nosso próprio “EU”. A incompletude nos torna mais ávidos diante dos seus emblemas figurados, aliás, é a partir de seu questionamento e quebra de suas instabilidades que passamos a desenvolver com outras percepções a aprendizagem de esquiva-se de suas astúcias e malícias.

    A capacidade de refletir e criticar as imposições que a trajetória do consumismo desenhou e ainda arquiteta como progresso, inclusa nas diversas ambigüidades propugnadas pelas suas eventualidades da dita “sociedade moderna”, coloca-nos na posição de analisadores e visualizadores das problemáticas que lhes são intrínsecas para o desenvolvimento de novos paradigmas da modernidade.

    No entanto é possível ressaltar a importância que a mesma configurou na história do pensamento humano. As suas dissensões desmoronadas dos tempos de outrora, até na contemporaneidade, trouxe consigo novas abordagens filosóficas para a contribuição do conhecimento que elaboramos e sistematizamos na atualidade, assim nos tornando autônomos diante das instabilidades capitalistas na qual traicoeiramente nos enjaula e nos apressa com suas ideologias.

    Abraços Professor.

    Emanoel Cunha

  • Emanoel

    Boa reflexão. Temos saídas, mas faltam motivações e coragens.
    abs
    antonio

  • Isak

    Com certeza, a parte afetiva é um desafio. Mexe com sentimentos e naõcom coisas.
    abs
    antonio

  • Rafael Ferreira disse:

    Realmente o ambiente infatil é uma área muito delicada, e o mundo moderno é cheio de armadilhas, das quais até mesmo os pais caem, contudo creio que não seja apenas uma culpa total dos tempos modernos (não estou afirmando com isso que não possua culpa), mas uma parcela está diretamente ligada aos pais, pois muitos não estão adaptados a esse mundo e ainda não perceberam que os métodos utilizados em seu tempo não abarcam mais o novo, e muitas vezes estes terminam não sabendo reagir a isso e preferem fugir, ou reagir de formas muito problemáticas e que acarretam grandes problemas para a sociedade, gostaria de lembrar que muito do que está errado hoje surgiu devido a atos anteriores. Creio que deva ocorrer uma procura por uma conscientização, não só das crianças, mas também dos pais, mas para isso creio que seja necessário a disposição das pessoas para seguirem pelo caminho mais difícil, pois ao meu ver estão ocorrendo estes acontecimentos devido a tentativa (frustrada) de resolver tudo pelo método mais símples, sendo estes a agressão e o mimo, ao invés de tentar resolver compreendendo que estas crianças são furutos adultos mas que irão aprender tudo o que lhes forem ensinados, inclusive os erros.

  • Rafaela

    Sem afeto a gente se perde. Mas a vida é escolha. Muitos preferem acumular e nem se tocam com as carências. O afeto traz a solidariedade e a confiança.
    abs
    antonio

 

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