O amor é astucioso e múltiplo, sem eternidades

 

Psique amou Eros. Não foi fácil. Muito encantamento, mas invejas e disputas atrapalhando o fluir da aventura. Psique sofreu. Pagou pela sua curiosidade, como descreve Ésquilo, e correu em busca de sossego. Sua história, ainda, hoje é lembrada. Freud que o diga. Nada na vida passa sem inquietações. Não confie no silêncio permanente. Ele é um ruído disfarçado. O presente é sempre novo; a causalidade, sempre atual: nem o passado nem o futuro existem, nem agem, logo nem causam o que quer que seja. Essa reflexão é de Comte-Sponville, centrada nas dimensões do tempo, mas é bom não esquecer que o diálogo, entre os momentos, discutem as transformações. As palavras se opõem, porém isso não é tudo.

Os amores atravessam a história. Não acontecem com o mesmo ritmo. Expressam paixões avassaladoras ou sonhos de eternidade. Ficam como exemplos. Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, continuam nos corações de muita gente e nas páginas de obras literárias. O cinema não perde, também, as versões de cada relação humana, porque ela comove e seduz as pessoas. Os amores ganham lugares especiais. Não é difícil pensar que possuem uma história e marcaram diferentes épocas. Por isso, a pergunta que anima qualquer debate: o que permanece? Há semelhanças entre os amores? O mundo do pragmatismo exacerbado é espaço para afetos fixos e imbatíveis?A complexidade das relações humanas afasta e aproxima as diversas hermenêuticas que compõem os saberes e as experiências. Os românticos, do século XIX, não são os cavaleiros da Idade Média, nem tampouco os poetas surrealistas do século XX.

Segundo Jurandir Freire, O amor é uma crença emocional e, como toda crença emocional, pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida. O amor é uma invenção humana, não caiu do horizonte, como um cristal inviolável. É uma  prática que desloca valores e redefine o conteúdo das relações sociais. No entanto, não custa compreender que a história não está aprisionada pela objetividade,  pelos  poderes da economia e da política. Freire chama a atenção para a construção da cultura. Ela não possui identidades infinitas, nem está sufocada na caverna de Platão. A travessia do amor institui linguagens, gestos, costumes, tradições. Responde às turbulências dos desejos. Traz motivações para arte e angústia para os indecisivos. Sua magia não o torna estranho aos ardis da razão.

O ir e vir dos sentimentos não os firma como tipos ideais que se repetem, para redenção dos desencontros e prolongamentos das felicidades possíveis.De Psique para a mundo da pós-modernidade, os saltos sobre os abismos não cessaram. As culturas desmancharam significados. Há perplexidades que formam  labirintos. O agir, o sentir e o pensar movem-se em direções diversas. Nem por isso, o amor se despediu da sociedade. Muitas vezes, aparece como ornamento de crônicas sociais, numa necessidade de criar laços com privilégios de aceitação. Justifica a hegemonia do efêmero. Os meios de comunicação exploram os crimes passionais. O corpo é alvo de raivas e de descontroles. Os ciúmes estão acordados, com a permissão de Eros.

PS: Pintura (Eros e Psique) do artista francês Jean-Louis David.

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17 Comments »

 
  • Monique disse:

    Mudam-se no tempo as formas, as maneiras, os valores, os modos de se encarar o Amor, porém, sua essência não se prende no tempo nem no espaço…
    A essência do amor é flutuante e permeia tempos e tempos com suas várias facetas.

    O texto está lindo,parabéns.
    Um ótimo sábado.
    abs

  • Gleidson Lins disse:

    Eu considero o amor irracional. E como irracional, penso que esteja araigado em nossa espécie desde tempos imemoriais, antes de darmos os passos rumo à humanidade. Escrevi algumas canções sobre o amor. Amores e eras é uma delas:

    É só o amor que pode transformar
    As noites frias em quentes dias
    Fazer do irreal o verdadeiro
    Do incompleto o inteiro
    E do mais duvidoso o mais preciso
    O mais intensamente vivo.

    E é só vivendo-o cegamente
    Que se enxerga nitidamente
    O que são verdades e mentiras.

  • Gleidson

    Será? Não há nada pensado na relação amorosa?
    abs
    antonio paulo

  • Monique

    O amor tem fluência e mora na vida de forma definitiva. Sempre mostra alguma coisa, mesmo quando fugimos dos seus ardis.
    Sábado pleno.
    abs
    antonio paulo

  • ladjane disse:

    Em meio a tanta frieza de amor, ainda há quem creia no amor incondicional.

  • Ladjane

    A questão não é a frieza. Cada sentimento tem sua história, seu tempo e seu lugar. Nada é para sempre, pois a história dialoga com a mudança e com a permanência. Por isso que a vida merece silêncios e ruídos. Viver é perigoso, como dizia Guimarães. Estamos num mundo de muitos sons e complexidade.
    abs
    antonio paulo

  • Zélia disse:

    O Amor sabe encontrar razões para ser Amor. Psyquê o conduz e o abandona a seu bel prazer, mas o Amor não liga, pois não tem planos, vive o momento seja onde for, e como for, e sabe que será novamente requisitado, pois sem amor ninguém vive, é matéria-prima de (quase?) tudo. É a centelha que nos move e paralisa. Amor é sentimento de muitas histórias vividas e inventadas. Sem Amor, na verdade, não há histórias.

  • Zélia

    Com certeza, o amor passeia pelas histórias.Faz parte das aventuras humanas.
    abs
    antonio paulo

  • Vince disse:

    Não sei se posso afirmar se o amor é ou não algo irracional, como afirmou o amigo Gleidson, mesmo porque para afirmar algo desse tipo teria que tomar como referencia minha propria racionalidade, e eu sou do tipo de pessoas que não acreditam piamente que nós, seres ditos “humanos”, somos racionais!
    O que posso dizer do amor é sobre algo que pude experimentar em mim por varias vezes, a inquietude e o extremo… Pois ao mesmo tempo que o amor pode te trazer paz pode tambem te pertubar, trazer certezas ou muitas duvidas, trazer felicidade ou ate desespero… Ao longo da história humana o amor pode gerar maravilhas, como exemplo o sacrificio de Jesus por amor a Humanidade, ou o ódio de Hitler que chocou o mundo, uma vez que o ódio nada mais é que um amor que ensandecido!
    Um abraço Resende!

  • Yves

    O amor é o grande mistério, pois mexe com tudo. Portanto, não dá para defeni-lo. Resta saber entender suas indas e vindas, quando possível.
    abs
    antonio paulo

  • Ivana disse:

    Não entendo como se pode conceber uma relação social a priori. Esse pensamento é incompatível com a história. Essa por definição mostra que o mundo muda. O problema das pessoas é não pensar historicamente, não se perceber como parte de um todo social. A partir de quando o homem toma consciência de si como ser social, ele percebe as influências que pode ter, só então se transpõe a barreira do comum. Fechamos os olhos…fazemos questão de não perceber as influências, acreditando viver em pleno acordo com o Eu.
    O Eu forma-se numa conversação com o exterior, com o mundo.
    Eles se influenciam mutuamente, mas vigora ai uma relação de força…

  • Ivana

    As relações sociais são históricas. Temos que construí-las na convivência, com circunstâncias que mudam. A história se faz na relação entre permanência e mudança.
    abs
    antonio paulo

  • Stéfanny Callender disse:

    Amor. Uma palavra tão pequena e de tão difícil decifração. Como entendê-lo e significá-lo? Talvez o amor seja o resultado de nossas inquietações e incompletudes, naturais ao ser humano que está numa constante busca de algo pleno, de algo que permita que ele se sinta completo. Porém, as relações capitalistas acabaram por afastar um pouco esse sentimento tão sublime e o colocar em uma posição intocável, inatingível, onde é muito comum escutar que não existe amor pelo outro. Esse amor foi substituído em parte pelo amor ao status social, às mercadorias, ao exibicionismo, comercializando os próprios sentimentos. O amor moderno se tornou símbolo de filmes, novelas e não mais da vida real. Não falo apenas do amor carnal entre homem e mulher, falo também do amor social, onde está a preocupação para com aqueles que morrem de fome em várias partes do mundo, o respeito à família e aos seus semelhantes, enfim. São poucas as vezes que o vemos, vivendo numa sociedade maioritariamente gélida e egoísta.

  • Stéfanny

    O amor não possui uma única forma. Transforma-se e mostra que as pessoas mudam sua afetividade. Portanto, é importante observar como a história dialoga com as formas de afetividade de cada época.
    abs
    antonio paulo

  • Stéfanny

    O amor não possui uma única forma. Transforma-se e mostra que as pessoas mudam sua afetividade. Portanto, é importante observar como a história dialoga com as formas de afetividade de cada época e sua variações.
    abs
    antonio paulo

  • Stéfanny

    O amor não possui uma única prática. Transforma-se e mostra que as pessoas mudam sua afetividade. Portanto, é importante observar como a história dialoga com as formas de afetividade de cada época e sua variações.
    abs
    antonio paulo

  • Stéfanny

    O amor não possui uma única prática. Transforma-se e mostra que as pessoas mudam sua afetividade. Portanto, é importante observar como a história dialoga com as formas de afetividade de cada época. Criticar o individualismo é um caminho para ampliar os afetos.
    abs
    antonio paulo

 

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