O amor flutua ou se desfaz como uma ruína?

Na sociedade das trocas intensas, das celebrações datadas, o amor pede e perde fôlego. O romantismo não consegue atrair tanto. Não morreu. Mobiliza sentimentos, entra nos corações, faz seus estragos. O mundo muda não só nas gestões econômicas. É que elas geram um noticiário objetivo, cheio de análises complexas que nem sempre dão certo. As especulações  justificam a existência de intelectuais. Afinal, não somos desejo puro, temos dúvidas mensuráveis e limites visíveis. Por que cultivar apatias se tudo se desloca de forma rápida e desafiante? O importante é não desmontar os entrelaçamentos, ter cuidado com as hierarquias. Tudo exige atenção e olhar esticado.

Os sentimentos estão na vida. Ela não é apenas trabalhos, discussões políticas, investidas nas cadernetas de poupança, comemorações artificiais de festas, desprezo pelas armadilhas dos inimigos. Os caminhos são incontáveis, estranhos, aconchegantes, desmantelados, sujos, desobstruídos. O jogo de palavras é proposital. Evitar a simplificação do que sentimos ajuda a compreender nossas histórias. Temos medo de encarar as covardias ou as vacilações. Não poderíamos ser perfeitos. Há desejos de perfeição. Eles são muitos, porém enriquecem a imaginação e, depois, sedimentam frustrações. Mas não se deve fugir da busca. Abraçar-se com os conformismos é estragar o ânimo, afundar a energia no oceano dos desencantos.

O amor é uma invenção. Nem todos amam e nem têm obrigação de amar. Há pessoas que não acreditam na generosidade, na autonomia, no afeto. Mergulham nas contas e transformam a vida num livro de fórmulas individuais. A complexidade não é pequena. Por que incentivar que todos sigam a mesma direção? Aonde anda a desobediência, a diferença, a astúcia? Portanto, há quem escolha a solidão e se tranque. Conversas, jamais. Desconfianças, sempre. Então, qualquer observação alerta para a multiplicidade. O aprendizado é contínuo, os outros se movimentam e criam seus traços singulares. A homogeneidade está fora dos giros do mundo.

O amor é um sentimento poderoso. Parceiro da paixão, construtor de metamorfoses e renovador de valores que formam cada cultura. Não se estabelece à toa, nem tem rota fixa, não arquiteta explicações exaustivas. Acontece, ainda que o mercado nos torne pragmáticos e narcisistas. O amor perturba tradições, dilui crenças, é uma lona de  circo com buracos estratégicos. Como possui história não está descolado dos lugares e dos hábitos. As músicas de Wando causam fossa, atordoam emoções, mas é impossível visualizá-las no século XVIII. Há ritmos, tempos, palavras, costumes, religiões, poderes que se redefinem. O amor não elege pertencimentos históricos ou é  fantasia fora da órbita do cotidiano?

Ele flutua. Como todo mundo, sinto necessidade de família e de amizade, afeição e relações amistosas. Não sou feito de pedras ou de ferro, como um hidrante ou um poste (Van Gogh). Não há como negar as afirmações do artista. Perambular solto, não é  procurar o colo e a sedução. Não adianta o consumo torturante nos encher de objetos com signos de felicidades. Há incômodos que só passam quando percebemos que os outros compõem a nossa vida. O amor nem sempre sobrevive. Suas ruínas sinalizam dores, mas escrevem memórias.

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4 Comments »

 
  • Diogo Chagas disse:

    Professor, gostei de seu texto em relação ao amor, principalmente nos dias atuais, onde tal palavra é tida como “brega” e o individualismo e medo do outro tornou-se tão forte, que a preferência por estar sozinho é marjoritária.
    Como historiadores, podemos nestes momentos fazer como Bloch,analisar o passado que degenerou gradativamente os sentimentos e cada vez mais os confundem e levá-ls a atualidade alienada pelo consumismo,e, assim trço, alterar essa realidade.
    abraço!
    sim,, sou o representante do segundo período de Hitória.
    por falta de computador, não poderei comentar sempre, mas farei o possível!

  • Diogo

    A sociedade não cultiva a solidariedade, mas sim a competição. Isto dificulta o sentimento e a proximidade.
    abs
    antonio

  • Viviane Holanda disse:

    Achei o texto muito belo. Hoje, além de muitas outras coisas, o ser humano tem perdido a coragem pela busca do amor, da afetividade. Buscam-se intimidades com tudo: objetos, máquinas, vícios, exceto com outras pessoas. Parece-me que com o descarte fácil de tudo como existe hoje, algo que é lentamente construído como o amor é rapidamente posto de lado. E pior que não é porque não se faz mais necessário, pois acho que o ser humano em si já nasce carente dessa afetividade, e sim pela falta disso em seu ambiente, pelo medo de se aventurar em algo que nos transforma tanto. Seu texto levanta questões e dialoga com os sentimentos, gostei muito.

  • Viviana

    Fez colocações bastante pertinentes. Temos que viver numa época marcada pelo consumo. É duro e limitante, mas vamos inventar nossas saídas. Grato.
    abs
    antonio paulo

 

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