O anos 1960: nostalgias e (re)encontros

O passado tem seus retornos surpreendentes. O tempo possui extensões e transforma a vida, dialogando sempre. Os esquecimentos aparecem, quando pareciam adormecidos e quietos. Por isso, nunca se deve deixar de lado a simultaneidade. Jogue o progresso no lixo ou questione a sua qualidade. Não significa dizer que nada vale das invenções da cultura.É perigoso  estimular euforias, apenas, na quantidade, no que mora no presente e anuncia traços do futuro. Desconfie das profecias, embora não as abandone de vez. A imaginação distrai e pede geometrias diferentes. Desacomoda.

O valor das experiências substituem discursos acadêmicos, com gosto de livros e de arrogâncias premiadas. Quarta-feira viajei na memória. Gosto de ouvir The Beatles. Uma referência que me acompanha. Todos, na minha casa, curtem sua música. Não sabia, contudo, que meu neto mais velho, Vinícius, é fã de Something, um dos últimos sucessos do grupo. Ele, simplesmente, a ouve, com encanto. Coisas da vida, magias que entrelaçam sentimentos. Portanto, apontar para a linha da história, sem compreender seus vaivéns, é um suicídio da sensibilidade.

The Beatles lembram uma década de muitas cores. Por aqui, a ditadura militar empurrava a censura e agia com seus serviços secretos. 1964 trouxe  exaltações ao desenvolvimento, nacionalismos doentios, sepultamentos de sonhos e pessoas rebeldes. O Brasil e a América do Sul não resumem as  respirações da sociedade humana. Se o autoritarismo fazia suas aventuras destruidoras, por essas bandas, outras ansiedades e utopias desfilavam em territórios inquietos.

Os contrapontos da história denunciam suas ambiguidades. É necessário olhar para todos os lados. Sem preconceitos. Em 1968, muitas revoltas se espalharam pelas cidades, com palavras de ordem renovadoras. Criticavam a burocracia e o consumo. Queriam a criatividade, a autonomia. Os jovens iam para a ruas e desmontavam velhas concepções políticas. As tradições se intimidaram e muitos governante partiram para repressão. Na França, a situação se radicalizou e as universidades entraram, na luta, com reivindicações demolidoras. Costumes se refizeram. Foi uma luz que firmou desejos e mostrou que as utopias se reanimam.

Hoje, lá estão os mais jovens, novamente, em ação. Munidos da tecnologia, convocam, pela internet, manifestações para derrubar corruptos. O mundo é outro. Tudo se estreita. As notícias ganham velocidade e tocam o cotidiano de cada um. O mínimo de informação circula pelas cabeças. Não há reflexões definitivas, mas curiosiodades quase novelescas. A televisão apressa conclusões, mas seria , mais útil, se fizesse o cruzamento do passado com o presente. A hegemonia das apatias esconde, muitas vezes, insatisfações que se avolumam, esperando instante precioso de construir sua força.

Depois dos anos 1960, a sociedade enfrentou a volta de conservadorismos marcantes. A cultura não se comporta, com coerências frequentes. Desmancha expectativas, porque lida com a heterogeneidade dos sujeitos que a encenam. Há lugares para dramas e pesadelos. A esperança não se eterniza. As hesitações desenham frustrações, porém nunca são para sempre. A música dos Beatles registra uma época que, ainda, se prolonga  e se aconchega nos nossos corações. Na memória, as nostalgias se acedem. É impossível não se balançar com o tempo, revisitar momentos.

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2 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Professor,

    Objetos, histórias, memórias, percursos, personagens, sons, silêncios são pontes para nossa dose diária de reencontros.

    Reencontrar comunga com recorda, ambas palavras de ressonâncias latinas. Remete-nos à recordação. Os encantos e desencantos tornam a passar pelo coração.

    O reencontro ritmiza nossa vida e embala nossos sonhos mais secretos e indizíveis.

    Por isso, “é impossível não se balançar com o tempo, revisitar momentos.”

    Abraços e um bom Carnaval.

    Rosário

  • Rosário

    Bom carnaval e vamos curtir as idas e vindas da vida. É o ritmo.
    abs
    antonio paulo

 

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