O avesso da política e seus espelhos riscados

                 

Não se vive sem expectativas. Os traços dos lugares se redesenham e os mapas mudam suas fronteiras. O fixo não ameaça os territórios, nem sepulta as inquietações da geografia. Nem por isso, o desejo de controle é abandonado. Tememos o imprevisível. Talvez, ele acumule indecisões. É difícil lidar com a falta de possibilidades. A cultura é reinvenção e não, paralisia. O futuro aberto é desafio, requer atenção, entrelaçamento de tempos. As ordens e as transgressões se recompõem e se confundem. As mudanças sociais se dão na costura do cotidiano. As revoluções ficam, muitas vezes, no discurso e na ilusão. A quebra dos hábitos tem ritmos, mas trazem reviravoltas.

O perigo e o susto não se afastam da vida. A visibilidade dos corpos não é garantia de medidas exatas. Há esconderijos e subterrâneos, na multiplicidade do mundo. Temos planos de fuga e resistência, porém as redes de poder são ágeis e não descansam. Simulam. Quem constrói os espelhos da sociedade? Todos e ninguém. A dimensão simbólica possui força de demolição e dilui valores. Negar a complexidade resolve seus desencontros? O melhor é enfrentá-los, sem apagar as vacilações e os recomeços. Não é preciso ser muito astucioso, para observar como o mundo  risca seus espelhos. A política nos traz exemplos numerosos. Fiquemos com os contemporâneos.

O governo da presidenta Dilma enfrenta discórdias constantes. Muito barulho, oposições ruidosas que não ultrapassam o limite das denúncias. Por outro lado, cabe uma questão: até onde as alianças políticas tumultuam os compromissos éticos e se lembram da cidadania? Como elas se estruturam para cuidar do dinheiro público e tocar suas gestões? Onde se coloca o zelo pelo princípio democrático? As coisas são vistas pelo avesso. A tensão localiza-se na disputa de cargos e não no respeito ao que fixa a Constituição. Fortunas se concentram, desigualdades se aprofundam.Tudo isso produz negociações incessantes. O Mensalão está aceso e José Dirceu jura inocência.

As argumentações são longas e dispersivas. Provocam irritação, pois a justiça demora a definir culpados e a corrupção se torna uma epidemia. É claro que existem exceções. Elas evitam o naufrágio total. As dúvidas, no entanto, permanecem, junto com desgastes que prejudicam os bem-intencionados. As instituições fragilizam-se. Palocci se foi. Deixou sombras no ar, atmosfera nebulosa, choques indefinidos. Os cenários se repetem e a sociedade entra em pânico, como se estivesse entregue a um destino que desconhece. Não é ironia vazia, porém a Igreja inventou o Purgatório, tentando suavizar os dramas dos pecadores. Qualquer semelhança merece reflexão.

Se afetivamente  fala-se tanto em desamparo, na vida pública se retoma sempre a discussão sobre a ética e sua extensão. Não se trata de evitar o pragmatismo ou não expurgá-lo da sociedade. Seria inocência não perceber que o mundo das mercadoria rompe com princípios e faz seus pactos com a razão cínica. Contudo, a naturalização do descontrole desarticula  a esperança e desarruma qualquer pedagogia. Quando as relações sociais são remendadas, o descrédito se consolida. As expectativas esvaziam-se. A opinião pública perde o diálogo e se mira no espelho da violência.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>