O avesso do avesso atravessa o mundo

O tempo come a vida (Baudelaire). A Líbia agita-se, depois de muito terror. Picasso namora com todos as sombras. Drummond mergulha nas sensibilidades mais anônimas. Nietzsche desafia os desencontros escondidos.Piazzola encanta as melodias tímidas. Peter Gay desvela o coração dos românticos. Auster brinca com os acasos da vida. Gabriel navega  numa solidão de cem anos. Fellini desenha a ternura em cada corpo. B.B. King canta o blue adormecido na esquina. Angelina Jolie veste a beleza, sem vitrine definida. Pelé ama a bola, que ama Garrincha, que ama Didi,  que ama o malabarismo e a improvisação.

Assim, vai  a sociedade. A viagem não poderia ter muitos portos, nem tampouco atores anêmicos. Sem tempestade a criação fenece. O que seria de Joyce e Rimbaud, sem ondas turbulentas e mares bravios? Os incômodos trazem desconfortos. Eles não representam, sempre, o lugar do sofrimento. Continuam as discussões sobre as origens do universo, nem por isso tudo está paralisado, esperando a onisciência dos deuses. Na incompletude, as reviravoltas se sucedem, mesmo quando as calmarias se tornam soberanas. Os sentidos são educados, porém não expulsam a possibilidade dos fantasmas se envolverem com as transgressões.

Quem pensa em elucidar os detalhes das aventuras de Ulisses, desconhece as astúcias da mitologia. Sua conexão, com as palavras, ultrapassa a narrativa única. A ida não consegue sobreviver sem a volta. O manto aquece, mas também se costura com remendos e bordados. Por mais que o coletivo se estenda, a invenção do indivíduo estimula as diferenças e cultua o retorno. A morte é ensaio, saudade se configurando em trapézios geométricos. Há alguma coisa que decreta que todos estamos vivos e desconfiados.

As metáforas ajudam a evitar os naufrágios, porque elas se inflitram pelos subterrâneos. Falamos de clareza, quando nossa intenção era exaltar a cegueira e o descanso. Falamos de ódio, quando nossa intenção era exaltar o amor e a virtude. As dificuldades são muitas. Ela se vinculam ao movimento do ânimo, à memória de Prometeu, aos desfazeres das esfinges. A história não é espaço para findar mistérios ou interromper alucinações. Os avessos, de cada relação, são respostas que se desmancham.

Dizem que existem quatro elementos básicos: ar, terra, fogo, água. Muita sabedoria enfrentar a questão dos fundamentos. Ela nunca foge, nem silencia. Além dos quatros elementos, poderíamos aceitar o quinto elemento: a palavra. Ela veste a nudez e dá forma a argila. Não é do mundo rasteiro, mas das flutuações incessantes. Não lhe cabem significados preguiçosos, nem verdades carentes de loucuras. A palavra nomeia os outros quatro elementos. Ela lhes empresta adjetivos e multiplica seus sujeitos.

O seu leito tem pedras e areias coloridas, acolhe profetas e fabrica imaginários. Quem não atiça seus sabores, amarga o veneno dos desencantos. Os fundamentos ganham territórios, quando se encobrem de buscas e não de recolhimentos. A palavra lembra riscos e desenhos, porém seu corpo e seu sangue desmontam a certeza da continuidade. Distrai o balanço da dúvida e o medo das assombrações. Mora nas cadeiras do Hotel Baudelaire, em Paris, ou  é a síntese do mito?

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • Geovanni Cabral disse:

    Palavras, belas em suas formas e significados vão aos poucos costurando tecidos da vida. Viver é enfretar desafios, percorrer labirintos, olhar para o mundo e não compreender o seu processamento. O mundo assite quedas de ditadores que sentados em sua corte refletem seu poder. Os especialistas falam do “efeito dominó”, dinte da crise de alguns países. A sociedade em direitos, liberdade, gritam a dor e fogem do medo. Aos olhos de muitos nada significam, é mais um evento no mundo Oriental, como os descritos pela história ocidental. Para outros, novos tempos se anunciam, novas palavras de ordem são ditas, se estabelecem acordos, talvez rupturas, mas muitas permanências. São territórios onde transitam culturas diversificadas, deuses que clamam justiça e homens que se debruçam em novos tempos. Como mencionas, assim vai a sociedade. Ou como diz Baudelaire, o tempo como a vida. E o mundo se transforma.

  • Flávia Campos disse:

    Antonio há vida em cada palavra, quando há uma alma grande bordando a intenção, a busca, os mistérios, os avessos, as idas e as voltas.
    Grata por mais um texto impregnado de palavras que criam, que pulsam, que fazem o sangue correr nas veias ao desenhar, no avesso do avesso, sonhos que encantam, transgridem e educam os sentidos.
    Bjs
    Flávia
    Ps. Excelentes as sugestões das novas leituras. Vale a pena socializar, recomendar e ampliar o acervo literário.

  • Flávia

    As palavras continuam tendo sua soberania, apesar das tantas máquinas. Elas possuem uma sutileza profunda.
    bjs
    antonio paulo

  • Geovanni

    O mundo se transforma e se esconde. É ambíguo. As palavras ajudam a entendê-lo.
    abs
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>