O Barcelona: arte e futebol, Pelé e Messi

Jules Fontaine, célebre jogador francês, afirmou que Messi é melhor do que Pelé. Jules participou da Copa de 1958, quando Pelé despontava e impressionava o mundo. Era um garoto e fazia gols como ninguém. Junto com Garrincha, desmontou defesas e desenhou um mito inesquecível, numa época em que os meios de comunicação eram, ainda, precários. Não havia todos os artifícios da poderosa globalização. Pelé foi adiante. Empolgava, porque surpreendia. Era magia, vontade, elegância. Tornou-se campeão e artilheiro em muitas ocasiões. Hoje, ocupa lugar de destaque na memória esportiva, sendo considerado o melhor atleta do século XX. Sobreviveu, apesar de não faltar quem testemunhe que há outras figuras, como Maradona, que superaram suas ousadias. No futebol, há crenças, não dá para configurá-lo pleno de discursos exatos e permanentes. É lugar de delírios e paixões.

As polêmicas firmaram-se, depois da vitória do Barcelona sobre o Manchester. Para muitos, a partida mais brilhante de todos os tempos, num exagero colossal que marca o sensacionalismo tão comum na aldeia global. Como o passado é desprezado! A pós-modernidade vive o presente, com intensidade, e se descompromete com a construção da memória. A atuação do time espanhol foi fantástica. É inegável sua arte, com objetividade e eficácia. O futebol ganha fôlego e mostra que não está falido nas suas astúcias. Os craques, que desejam exercer a invenção das simetrias mais atraentes, merecem elogios. Não se escondem. Dançam na fecunda magia de seus passes. Não desmantelam, nem ativam pressas. Fazem do adversário um espectador encolhido.

Uma provocação na saudade. Lembro-me de muitos jogos. Aquele ataque demolidor do Santos: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Tenho recordações luminosas dos dribles de Garrincha, da maestria de Didi, do Cruzeiro da época de Dirceu Lopes e Tostão. Poderia citar talentos como Rivelino, Falcão, Nilton Santos, Ademir da Guia que faziam bola girar sem peso, buscando diálogo com os caminhos do campo. Não é nostalgia barata, nem inveja dos feitos do Barça. É celebração diante dos chutões que vemos nas transmissões das partidas nas TVs, com retrancas terríveis e  enfadonhas táticas do medo. Praticar esporte, com excelência, é uma escolha. Infelizmente, a grana se mete nas disputas e a beleza foge dos pés dos atletas. O pragmatismo aliçerça justificativas. Valem as transações milionárias e os sucessos efêmeros.

O Barcelona está virando lenda. Cadencia, brinca, elabora, deixa todos perplexos. Flutua. Cabem, então, comparações entre jogadores do passado e os famosos do presente? É difícil fugir das especulações, porém as reviravoltas do tempo são frequentes. Hoje, há um assédio implacável da mídia. As transformações correm, entusiasmadas com o seu valor de troca. Pelé não desapareceu.  A sua imagem continua muito viva. Messi conhece da arte de tratar a bola com afeto e simplicidade. Os dois estão longe de qualquer risco de mediocridade. Pintam espaços supreendentes, balançam corações, mas mexem com instantes do futebol que exigem ritmos de dimensões diferentes. Na sociedade do consumo, Messi sofrerá muitas pressões para manter seus malabarismos. Que sua arte tenha permanência, não se acomode com o tilintar das moedas! A velocidade mascara o que atrai contemplação.

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16 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    O futebol jogado hoje pelo Barcelona realmente é fantástico, quando comparado às mediocridades táticas reinantes. A partida contra o Manchester United destilou isso: bailarinos contra robôs. O Barcelona baila, transcende, inventa espaços, destrói a mesmice do futebol atual. Vale salientar que a forma de jogar que o Barcelona apresenta hoje é uma filosofia do clube implantada pelo cerebral Johan Cruijff quando foi seu técnico entre 1988 e 1996 em todas as categorias do clube, baseada no futebol total do carrossel holandês de Rinus Michels. Além disso, o Barcelona tem Messi.
    As comparações de Messi com grandes jogadores do passado é inveitável e é um lugar comum para a mídia. Messi joga de forma simples e eficiente, mas com habilidade e inteligência reservadas aos gênios. Não há problema em compará-lo com os grandes do futebol porque ele já é um deles. Puskas, Di Stefano, Pelé, Garrincha, Beckenbauer, Cruijff, Zico, Maradona, Zidane, Messi, para citar os que me vem à memória. Mas o futebol é um esporte coletivo e Messi precisa mostrar o seu talento na seleção de seu país. E essa é a grande diferença que faz do Barcelona o melhor time da atualidade: o coletivo está acima das individualidades.
    Resta-nos a nostalgia com uma pitada de inveja. Éramos nós que jogávamos assim. Da minha memória não se apaga dois esquadrões fantásticos que jogavam dessa forma: O Flamengo do começo da década de 1980 e a seleção brasileira de 1982. Os grandes times e jogadores do passado não podem ser esquecidos. É neles que os de hoje se espelham.

    Abs,
    Gleidson

  • Gleidson

    O futebol pode ter um espaço que lembre a boa arte. Seria muito bom. É um espetáculo.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo disse:

    Acho injustiça comparar Messi com Pelé , pois as condiç de hoje são bem superiores , campo de jogo,bola,peso da camisa , preparação física etc..
    Contudo vejo muito mais variedade de jogadas em Pelé
    Só para não esquecer da terrinha também tivemos nossos
    times espetaculares como o velho timbu da década de ouro
    “60” Nado,Bita,Nino e Rinaldo(Nino). Este time jogava
    em condições de igualdade com o Santos,Palmeiras e Cruzeiro.
    Acho que são tempos que não voltam …..

  • Rafael Cesar disse:

    É muito interessante essa discussão, anacronica mas interessante… dizer que messi seria melhor que pelé inflamaria egos de argentinos e catalãos, mas como bom brasileiro ninguem supera o “negao” pq? pq ele nao é insuperavel somente em campo… fora tambem… reconheço o messi nao como um jogador excepcional, sim, como algo superior a excepcional o problema é achar uma palavra que defina isso com precisao mas na época de pelé todos os times jogavam como o barcelona joga, ou seja, era futebol que empolgava, que dava prazer em parar tudo que se está fazendo para assistir… eu duvido a minha pessoa nao parar td para assistir a um santos e botafogo na decada de 60, hoje eu achei muito mais interessante ler uma xerox da faculdade do que assistir ao maior classico do futebol espanhol “quiçá” do mundo… o mais frustrante nisso tudo é ver a camisa do meu time quase nao ter espaço para o brasão do clube, de tanta propaganda publicitária… como assim gente? cadê o futebol, e mainha me dizia que o importante era a diversão… pobre mamãe, ludibriada…

  • Rafael

    Tudo virou um grande espetáculo. A condução da mídia dirige opiniões. Tudo gira em torno dos grandes lucros. Fica, então, difícil não perceber que o futebol é outro. Realmente, sinto saudades daqueles jogos soltos e prazerosos.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo

    Houve muitas mudanças, mas a comparação faz parte do jogo da imprensa. Não faltam craques.
    abs
    antonio paulo

  • Da Mata disse:

    Prezado Antonio Rezende,

    Compartilho de sua opinião sobre o sensacionalismo descabido da mídia na pós-modernidade no que tange ser o atual melhor que o passado.

    Penso, no entanto, que o futebol como qualquer outro esporte de alto-rendimento evoluiu taticamente e fisicamente. Exemplifico e comparo: os tempos conquistados por Mark Spitz nas Olimpíadas de Munique (1972) não chegariam nem às semifinais das mesmas provas em Pequim (2008). Da mesma forma, a velocidade e o vigor físico exigidos pelo futebol nas décadas de 1960 e de 1970 (período, este, em que Garrincha e Pelé atuaram) são totalmente distintos dos padrões exigidos atualmente. Ou seja, o futebol é muito mais rápido e tático do que no passado.

    Seriam Pelé e Garrincha grandes jogadores se fossem submetidos às atuais condições de treinamento? Talvez sim, talvez não. Creio que seriam melhores que Messi, mas isso é uma mera suposição, vez que comparar o futebol da década de 20 com o futebol da década de 60, e este com o futebol do final do séc. XX e começo do séc. XXI é comparar o incomparável, vez que as formas de treinamento e o desempenho são bem distintos.

    Quem foi melhor Pelé ou Maradona? Por critérios estatísticos: Pelé. Mas será que Pelé conseguiria se destacar na década de 80, quando a formação tática e física é completamente diferente? E Maradona conseguiria se destacar na década de 60¿

    O Esporte de alto-rendimento é decidido em pequenos detalhes, em que até mesmo os gênios devem respeitar esse padrão: que o digam Borg, Schumacher, Jordan etc. que quando tentaram voltar às competições longe de sua melhor forma não passaram de meros coadjuvantes.

  • Da Mata disse:

    Grande abraço!

  • Da Mata
    Concordo. As condições são outras. Fica complicado pensar em comparações. As históriaa mudam e as xigências são passam até ppor novas regras de desempenho. Mas há um encantamento no futebol de Pelé que ficou. Seria ótimo que mesmo com as modificações, os malabarismos continuassem.
    grande abraço
    antonio paulo

  • Antonio Dantas disse:

    O anacronismo é um dos maiores erros perpetrados na análise de certos fatos e é “pecado capital” quando cometido pelo historiador (mas como Just Fontaine não é historiador, logo não está condenado).

    Refletir sobre acontecimentos, costumes e sentimentos de uma determinada época e julgá-los mediante concepções do presente são erros que ocorrem quando, nestas circunstâncias, deixamos de analisar os fatos sob um olhar crítico e damos lugar às análises comparativas que, por conseguinte, nos conduzem ao senso comum.

    Just Fontaine não só viu Pelé jogar, como também jogou contra ele, isso lhe credencia a entender de futebol mais que todos nós, no entanto, comparar Messi a Pelé foi muita pretensão de sua parte.

    Rezende, esta é a segunda fez que publico na Astúcia de Ulisses e pela segunda vez falo de futebol, embora não me considere a pessoa mais indicada para falar deste assunto. Jogando, sou pior que Felipe Melo (só quem assistiu a Brasil x Holanda na Copa do Mundo de 2010 entenderá), comentando, sou tão ruim quanto Neto. No entanto, não precisa ser um expert no assunto para saber que Pelé foi um exímio jogador, ainda que, segundo o baixinho Romário, não tenha o mesmo talento para a retórica (lembrando o episódio do “Pelé calado é um poeta”).

    Além de Pelé; Platini, Garrincha, Beckenbauer, Cruijff, Zico, Maradona e Zidane foram grandes jogadores em suas épocas, mas me arrisco a dizer que nenhum deles foi o melhor no que fez, afinal, para mim, não existe e nunca existirá “o melhor jogador de futebol do mundo”.

    Se número de gols definisse bons jogadores, Romário seria melhor que Messi. Se artilharia em copas definisse bons jogadores, Ronaldo seria melhor que Pelé. Se ganhar Copa do Mundo fosse também um critério para essas definições, Dunga seria melhor que Zico… (encerro por aqui esta lista de comparativos, temo por cair no anacronismo).

    Todos nós temos limitações; Pelé teve as suas na Copa de 1966, com a eliminação prematura do Brasil. O povo brasileiro chorou com Zico e Cia., pela inacreditável derrota da Seleção Canarinha frente à Itália de Paolo Rossi em 1982. A ausência de um título com a seleção argentina, assim como seu fracasso no mundial da África, deixa Lionel Messi longe de ser comparado até mesmo com seu compatriota Maradona.

    Rezende, você foi muito feliz em seu texto ao colocar as partidas de futebol dos times europeus, em especial as do Barcelona como um espetáculo midiático de fascinação das massas. Os títulos do futebol europeu não são melhores ou mais importantes que os títulos sulamericanos, o problema é a badalação, ou, como você colocou “o sensacionalismo tão comum na aldeia global”.

    O futebol não é mais o mesmo dos tempos de Pelé. Hoje, há o assédio implacável da mídia, os salários são diferentes, o preparo físico é diferente, as motivações são diferentes, só o coração dos apaixonados pelo futebol bate com a mesma intensidade… Cabem, então, comparações entre jogadores do passado e os famosos do presente?

    Um forte abraço,

    Antonio Dantas

  • Antonio

    O mundo se renova e as hierarquias também. Portanto, comparar fica complexo, mas todos possuem as suas preferências. O que confunde é a pressão da mídia, a manipulação constante do desejo. Isso traz confusão e invejas.
    abs
    antonio paulo

  • Vivemos no mundo dos grandes espetáculos e o futebol, que é o esporte mais popular do planeta, não foge dessa regra! Para comprovar isso é só prestar atenção nas cifras que rolam pelos bastidores, as verdades riquezas que são oferecidas aos jogadores para que esses mostres sua arte. É natural que, com toda a atenção voltada para esse esporte, as pessoas estejam sempre ansiosas para viver sempre “o melhor de todos o tempos”. Claro que isso também é uma conseqüência do enfoque que a mídia faz, pois basta despontar um jogador para começar a ser comparado à craques do passado. Foi assim com Ronaldo, Robinho, Ronaldinho, como agora acontece com Neymar e Messi. Não se pode comparar esses talentos, não que essas jóias que agora brilham não tenham seu valor (Messi joga demais!!!), mas as condições eram outras. O que devemos fazer é reconhecer o que cada um vez em seu tempo.

  • Ian

    Cada monento tem suas configurações e suas aventuras. Temos que observar as diferenças. Portanto, há mudanças e tentativas de rnovação. Por isso, é difícil fazer julgamentos.
    abs
    antonio paulo

  • Wellington José Soares dos Santos Júnior disse:

    O exagero também acompanha o futebol. Não irá faltar aqueles personagens que vão ser alvo de comparação com eternos ídolos do passado. O futebol se modernizou. O futebol grosseiro e duro, deu lugar ao charmoso e vistoso futebol moderno com lances até então inimaginaveis.
    O que se vê hoje é a personificação do mito. Achar que uma pessoa possa a ser a comparação a um Deus, é de fato, uma loucura infâmia. As mitologias, por mais que ela seja a personificação do homem no mito, ela traz resquícios de cultura em suas entranhas. O futebol vai adquirindo traços comparativos com o Olimpo, onde existam os deuses, os semi-deuses e os servidores que dedicam-se a dar brilho aos personagens anteriores.
    Messi, sozinho, não faz muita coisa. Ronaldinho Gaúcho também não fez muita coisa. Fases nos deixam marcas, inegável discutir isso, mas a fase acaba, como acaba o sonho. Sonhos passageiros é aqueles que são fáceis de se comprar, numa padaria de esquina, numa vendinha…
    Renegar o passado, é renegar a própria história. Por mais que falem dele, sempre irei reverenciar aquele que transformou o sonho em realidade, trouxe o abstrato mais perto de nós, pobres mortais brasileiros que não sabiamos onde se apegar. Obrigado Pelé, fez muito mais do que maradona, messi e ronaldinho gaúcho juntos.

  • Wellington

    O futebol está no meio da sociedade do espetáculo. Envolve-se com as negociações e as disputas sociais. Porém, não se pode negar a sua arte e os feitos dos craques. Merece atenção.
    abs
    antonio paulo

  • Wellington

    O futebol com arte enche os olhos.Mas a dispuata pelo mercado gera muito desencontro.
    abs
    antonio paulo

 

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