As vitrines, os poderes, as controvérsias, os vazios

 

As notícias atiçam os comentários. Por elas nos conectamos com o mundo , nunca afastado de novidades. O cultivo das opiniões é fundamental, para alimentar as instituições sociais. O domínio do silêncio seria uma quebra do ânimo. As relações cotidianas precisam de ruídos e controvérsias. Crescem as diferenças, formam-se os grupos, destacam-se os poderosos, inquietam-se os rebeldes. É observando e refletindo que construímos identidades, sem querer fixar comportamentos, criticando exemplos e costurando modas. Visualizar sossego na complexidade que nos cerca é raro. O mundo se mete por aventuras inesperadas, desprezando valores e divindades.Dizem que o poder é cruel. Está longe das especulações de Maquiavel. Elas são suaves, diante das violências atuais.

Fico impressionado como a mistura dos tempos históricos tumultua a escolha política e o refazer das culturas. Os genocídios das guerras etnocêntricas, os desmantelos do Orientes Médio, os assassinatos na disputa pelos comércio de drogas não encerram as rivalidades e as armadilhas das vinganças. Na Somália, a questão ganha proporções inimagináveis. Há cerca de 30 mil refugiados, tomados pela fome e já morreram quase 30 mil crianças. O que é pior: numa distribuição de alimentos, feita para minorar os descasos, outro massacre aconteceu, comandado pelas tropas do governo. Os ditadores não esgotam seu poder de fogo, pouco se importando com a miséria e se divertindo com as corrupções. Não esqueça que na Síria e na Líbia os desmandos quase se  eternizam. São conexões opressoras.

Existem vários comportamentos que dão conta da multiplicidade social. Há desigualdades evidentes, porém há espaços para vaidades. A concentração de riquezas tem moradias e ambições. Percorrendo os jornais, fiquei perplexo com um anúncio. Não sou inocente, vivo pescando contradições e torcendo para que a solidariedade se  apresente. Portanto, exercito a critica com compromisso, não apenas pelo prazer de escrever. Numa página inteira de jornal, encontrei uma foto de Neymar, o menino prodígio, com todos os requintes da propaganda. Poucas palavras: Neymar  agora é meia(LUPO).A grana enfeitiça.Traz coisificações velozes. O craque aumenta sua poupança e o Santos garante  investimentos. A força dos ídolos é indiscutível. Seus exemplos cativam admiradores. Por isso, ocupam lugares privilegiados na mídia. Ninguém nega as faces do poder de sedução. Pelé, Ivete Sangalo, Luan, Zeca Pagodinho desfilam em imagens e atos que exaltam automóveis, bancos, cervejas, marcas …

As pedagogias não habitam, apenas, as salas de aulas ou as mesas de jantar das grandes famílias. Ensina-se e aprende-se, em cada relação social. Quem descobre mecanismos sofisticados ganha extensões territoriais para suas mensagens. Vencem e convencem. Vendem uma concepção de mundo, elegem os brilhos das vitrines, a astúcia dos enganos. Quem veicula a mensagem age esperando bons lucros. A sociedade de consumo concretiza-se na prática cotidiana. Não é uma ilusão. Quem possui rostos conhecidos e provoca delírios na multidão, não se cansa de usar charme e discurso. Com seus deslocamentos, transformam gostos, emoções, expectativas. Ainda bem, que as controvérsias surgem e colocam questões sobre essa aldeia global que não pensa seus valores. Se a Somália nos assusta, nos espantam também o vazio e a massificação.

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4 Comments »

 
  • Natália Barros disse:

    Bom dia, Antonio Paulo!
    Um novidade, que acho que vai gostar: seu blog será o roteiro das aulas do 3ºano do Colégio de Aplicação, no curso irei ministrar sobre Contemporaneidade. Elegeremos os pilares de discussão a partir de sua leitura do mundo, que afinal é isso que é seu blog, uma grande lupa nas pequenezas do nosso cotidiano. Um beijão

  • Natália

    É o sentido das coisas ou a tentativa de olhar com atenção o que nos cerca. É importante para ficar junto do mundo. Agradeço sua divulgação. Vai ser ótimo.
    bjs
    antonio paulo

  • Geovanni Cabral disse:

    Meu nobre amigo, fico assim como você perplexo com essa multiplicidade de fatos que instigam olhares e discussões. Os horrores das máquinas de guerra, o desmando de tiranos, a miséria de milhões. Esse tal de capitalismo seduziu de tal forma o homem que o fez cegar diante do social e de sua forma de vida. Culturas e povos são dizimados, crianças são mortas, esperanças se calam. A Africa com sua diversidade, dona de uma cultura ainda deconhecida por muitos, permitem que ditadores alimentem sua sede de poder e vingança. Até hoje me pergunto qual o papel da ONU diante das atrocidades da Somália, Argélia, Angola e assim segue. Por que são esquecidos e jogados a própria sorte? nem seus deuses são capazes de acalmar tamanha fúria e destruição. As noticias nos causam profundas revoltas e tristezas, ficamos pensando como tudo isso ainda é possível? Enquanto isso, a sedução do luxo e do efêmero propagam e elegem seus ídolos, as palavras de ordem são “lucros à vista”. E na profussão de tantas imagens e ideias nos damos conta de que tudo isso é meticulosamente estudado, pesquisado da melhor forma possivel. A pedagogia do negócio e do lucro. Lembro das discussões do Gilles Lipovetsky, em ” O luxo Eterno”, a forma como a sociedade mantém uma relação emocional com as marcas e os ídolos que os fazem sonhar e melhor: querer comprar. É o eterno prazer do consumo, desenfreado e sem medidas. E que bom que as controvérias surgem para poder incendiar um pouco esse campo ilusório.

  • Geovanni

    Os contrastes são muitos. O consumo traz os objetos para o reino do prazer. Perturba a reflexão e esvazia a solidariedade.
    abs
    antonio

 

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