O Brother não é o pecado capital da sociedade

Os rituais são comuns. Quem pode viver sem eles? Os anos passam, mas estamos envolvidos por relações que nos lembram de anos da infância ou  de perdas recuperadas. Viver é também costurar repetições. Não se anulam as dúvidas tão repentinamente. O tempo tem seu vaivém que chama atenção dos inquietos. Há acontecimentos que sacodem a sociedade. Alguns seculares, outros produtos da globalização com toda tecnologia atualizada. As TVs não se cansam de explorar o antigo, procurando vesti-lo como algo inusitado. É o jogo que engana e multiplica lucros. Elas elegem novidades, lançam anúncios sofisticados, penetram nas conversas do cotidiano.

Os comentários possuem efeitos avassaladores. Quando chega a época do Brother se nota uma atmosfera de agitação. Será o gosto pelo suspense ou uma fantasia democrática de brilhos descartáveis? Quem se liga na vida privada não perde um programa? Enfim, existem mil razões para justificar a força da Globo. Aliás, não só ela, porém a paixão pelas intimidades, o desejo de  acumular milhões não é exclusividade do Brasil. Tudo se estreita, quebrando fronteiras, fascinando pessoas ansiosas para fugir da monotonia. O Brother sempre promete assanhar provocações, move torcidas, agrega amigos, fere regras, inventa possibilidades, movimentar o lar e suas singularidades.

O difícil é circular sem escutar histórias dos sujeitos da casa misteriosa, com segredos e aberturas, espalhando sonhos e aumentando o consumo de variados psicotrópicos. Há quem não suporte o fracasso dos ídolos. Há quem não dispense uma cerveja gelada ou um pote de sorvetes com muito chocolate acompanhando. A indiferença não existe. Sobrevivem a empolgação, as análises sérias e concentradas, o deboche e o riso, a tesão reprimida na cama oficial. Mobilização de energias que evitariam quaisquer boatos de apagão. Os escândalos, as violências, os desgovernos não competem com as ações obscuras e inquietantes dos Brothers?

Não se acanhe. Não é pecado se localizar na central da Globo. Adão e Eva viveram noutra época. A maçã e a serpente estão de férias eternas. Vale o profano. Não tenha medo  de sua fama de rebelde e intelectual. Por que tanto preconceito alimentando o coração? Será que algo não se esconde? Por onde andam os devaneios? Há tensões. Muitos juram não suportar os juízos televisivos. Preferem uma leitura, ouvir Chico Buarque, assistir a um filme de Visconti. As dissidências moram nos debates de forma, às vezes, raivosa. É uma questão de identidade, dizem alguns.

A solidão está por aí assustando. As multidões tomam lugares de convivência, mas as depressões se firmam, o afeto se desfia. Há desconfianças, competições irritantes, desistência de navegar pela ousadia. O Brother ajuda, para muitos, a silenciar certos impasses, fabrica delírios, ameniza conflitos, tece máscaras. A sociedade arquiteta testemunhos estranhos que invadem as subjetividades. Quem consegue decifrar tantas misturas? Portanto, surgem produções que buscam responder perguntas ou sacudi-las no lixão. Há maneiras diversas de entrar no espetáculo. Por que  escutar a voz da solidão? Se não consegue olhar para outro, com mais cuidado, algo lá dentro incomoda. A Globo não é inocente. E nós? O que escolhemos?

 

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4 Comments »

 
  • Anderson disse:

    A capa da intelectualidade em muitos casos nos obriga a querer ser e estar diferente da sociedade. Eu, apesar de não ser um telespectador deste reality show, prefiro fazer como Ulisses caminhar por vários campos, sem se prender em nenhum. Penso que programas como este citado refletem de alguma forma os anseios, as características, as virtudes e os os medos da nossa sociedade. Desta maneira, como um estudante das humanidades estar ligado com a opinião pública não é nada desonroso ou menos intelectual.

  • Anderson
    Se as relações existem não devemos deixar de observá-las. Fica a possibilidade da escolha. O sucesso desses programas não acontece de repente. A sociedade tem sua maneira de se comportar e muita heterogeneidade. Há quem curta a fofoca e outros seguem procurando o intelectual. O perigo é o preconceito e a falta de crítica.
    abs
    antonio

  • Karem Almeida disse:

    Existe uma pressão intelectuóide que critica os que ouvem Zezé di Camargo mas aplaude quando Maria Bethânia canta “é o amoooooor”.
    Maria Bethânia pode, é MPB, recita poemas e adocica os versos mais simples. Zezé não. Ele dorme nas cozinhas, é adorado por gente que mal sabe escrever uma frase, que dirá um poema.
    Os territórios demarcados pelas elites pensantes são arrogantes e excluem uma gama enorme de possibilidades.
    Não sinto vergonha de ouvir Musa do Calipso e não acredito que isso me faça menos interessante do que quando estava obcecada por Chico.
    Certa vez um querido professor no curso de Cinema assumiu que, para relaxar, assistia Duro de Matar e Missão Impossível. Quando alguns arrotam Godard, aquela pessoa descia do salto que todos os títulos lhe deram e se assumiu apreciador das coisas múltiplas. Genial.
    Eu sou assim.
    Estou sempre disposta a pular o muro.
    Quem demarca minhas fronteiras sou eu.

  • Karem

    É isso. Muita gente se aproveita para expor arrogâncias. Temos que olhar com cuidado e não com prepotência. Estamos no mundo e não podemos sobrevoar como enigmas.
    abs
    antonio

 

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