O caos urbano não é uma ficção, nem um tédio

 

A cidade é um mito. O mito tem permanência. Não se  apaga fácil, desafia eternidades. Atravessa séculos. Muitos mitos são, radicalmente, fundantes.  Instituem modelos de comportamentos e histórias de épocas contagiantes. A cidade não está, apenas, localizada nas idas e vindas da modernidade. Ela remonta a tempos antigos, de memórias mágicas e deslumbrantes. Foi comparada a paraísos, compõe travessias de povos, entrelaça-se com o fabuloso. Sintetiza projetos civilizatórios, lutas intermináveis, arquiteturas engenhosas. Firma épocas , mostra o poder de sociabilidade das culturas.Hoje, se fala em caos urbanos. Muitas cidades estão degradadas, multidões ocupam ruas, mercadorias se espalham, pelas esquinas, becos fedem, cheios de lixo e de urina.

Imagine os deslocamentos sociais das populações de São Paulo, Tóquio, Quito, México, San Francisco, Paris, Santiago, Lisboa… É impossível captar suas minúcias e descrevê-las, mas não há como menosprezá-las. É preciso mergulhar nos devaneios da contemporaneidade. Leia o que diz um operário de fábrica, numa transcrição de Eduardo Galeano: Quando você entra para trabalhar ainda é de noite e quando você vai embora o sol já está indo. E por isso, no meio dia, todo mundo consegue cinco minutos para ver o solzinho na rua, ou no pátio da fábrica, porque não se vê sol no galpão. Entra a luz, mas você não vê o sol nunca.

As cidades continuam sendo as grandes moradias dos indivíduos. Os desencontros não apagam o desejo de aconchego e de visualizar sinais confusos de segurança. As paisagens tornam-se espelhos de identificação, fundamentais na construção das intimidades e dos afetos. Para além do concreto armado, tão dominante nas metrópoles, as cidades se estendem, criam mistérios e lendas, visitam medos e pesadelos. Italo Calvino desenhou, com delicadeza e inteligência, as atmosferas d’ As Cidades Invisíveis. Um livro inesquecível, para quem gosta dos contrapontos das aventuras humanas.

No Brasil, vivemos, também, as soberanias dos aglomerados urbanos. Os problemas são inúmeros. As especulações imobiliárias avançam em territórios antes agradáveis, com árvores majestosas e silêncios, tranquilos e poéticos. As manchetes divulgam as surpresas das balas perdidas, os acidentes das motos compradas em prestações infindáveis, os descontroles dos motoristas embriagados. Falta espaço de lazer, pois as avenidas têm fome de máquinas e de asfaltos. Há questões urgentes, adiadas e sucateadas nas gavetas dos órgãos administrativos. O cotidiano é o  retrato do sufoco, do luxo e da miséria, da perplexidade que perturba quem possui o mínimo de sensibilidade.Os contrastes não cessam de existir, colocando as utopias urbanas em suspeita e os arquitetos sem soluções confortáveis para contornar tantos desmantelos.

Nas cidades, concentram-se  desigualdades, carências, sentimentos atordoados. As vaidades do progresso fazem ruídos, acompanhados da mania de grandeza. Tudo se agravou com a promessas de redefinir o urbano para receber a Copa de 2014. Dilma se desentende com os negócios da Fifa. Circulam bilhões, como num conto de fada pós-moderno e, exageradamente, capitalista. De repente, surgirão arenas esportivas, avenidas colossais, lugares de hospedagem inimagináveis, espaços para ampliação dos aeroportos. Os políticos se deliciam com as novidades. O conto de fadas não se  descola de tramas e de desconfianças.

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9 Comments »

 
  • Karla Vieira disse:

    Engraçado como nos sentimos, na maioria das vezes, confortáveis com esse caos. Quando por alguns dias nos afastamos de todo tumulto da cidade grande sentimos como se uma parte de nos faltasse. De forma alguma o caos urbano é tedioso, ele nos impulsiona cada vez mais para nossos delírios capitalistas.

  • Taiguara C. Rocha disse:

    Moramos em uma “selva de pedras”, com feras de metal, o sangue que circula em nossas veias é preto e nossos neurônios são de silício.

    ESSE É O PROGRESSO!!!

    Mesmo que os excrementos do sangue preto nos tragam doenças, as feras de metal nos atropelem, as pedras da selva nos matem de calor e as maravilhas do silício nos emburreçam.

  • Taiguara

    Gostei das imagens. Realmente, vivemos cercados de inseguranças, mas exaltamos o progesso. É a sociedade que acumula e não reflete.
    abs
    antonio

  • Karla

    Navegamos nas contradições. O barco é largo e veloz.
    abs
    antonio

  • DIÓGENES disse:

    Já dizia Racionais na sua música “negro drama”:
    (…)”Daria um filme,Uma negra,E uma criança nos braços,Solitária na floresta,De concreto e aço,Veja,Olha outra vez,O rosto na multidão,A multidão é um monstro,Sem,rosto e coração,hey,São Paulo,Terra de arranha-céu,A garoa rasga a carne,É a torre de babel”(…).
    Cheia de significados mostra um pouco da realidade brasileira,cidade é sinonimo de caos, ela é um verdadeiro saco de desigualdades, violências e sentimentos atordoados. As realizações na cidade só são as operações tapa-buracos e a verdadeira revolução urbana esta longe de acontecer.

  • Diógenes

    Na cidade, tudo se vive. O tempo passa e ela vai ficando mais complexa.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    A perca dos sentidos e das carências humanas nos direciona a perceber o quanto é possível você cair na mesmice das imposições que lhe são passadas. Deliciar-me em contradições e complexidades é o que mais ando a exercitar, pois contrapondo-me a mediocricidade da ignorância humana cresço em mente e em intelecto.

    A percepção de compreender a si mesmo e o mundo do qual envolve todo o sistema de organização social, que dela se abarca: Ideologias, política e culturas demonstra-nos o quanto das “idealizações” confusas da atualidade podem ser redefinidas e que vivemos em constante processo de oscilações e fragmentação dos delírios das chamadas sociedades comtemporanêas, que se esfacela a cada instante e que destituem as afetividades do homem para com sua propria compreençao de mundo.

    Abraços professor

  • Emanoel

    É a cidade é uma grande síntese das muitas complexidades que vivemos. Desafia, inibe, fascina.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    O fascínio ás vezes não preenche as lacunas que almejamos, a sua inibição nos afasta das compreenções da história humana, daí sua complexidade e seu desafio é desvencilhar e conjugar a vida como ela é, não por que nada é dado, mas sim que é contruído, pois somos os que modeladores da sociedade. A modernidade carrega em si uma grande complexidade. No entanto é possível adentrarmos em seus próprios becos, acontecimentos e espaços para refletirmos acerca de seus paradígmas.

    Abraços professor

 

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