O Carnaval chega cedo e revira tudo

O Carnaval  tem data marcada na agenda anual. No entanto, na prática ele começa quando animação se completa para valer e o verão esquenta os corpos e os desejos. Não é festa de sossegos. Quem entra na sua folia perde-se no tempo. Ele ajuda a ver como os limites entre a transgressão e a ordem são relativos. Existem os que acham o Carnaval um desperdício. Lamentam a agitação, a invasão da privacidade. Por isso, nunca deixarão de haver controvérsias, descontentamentos. Mas a grande multidão não formula maiores indagações. Sacode a alegria, comemora a possibilidade dos excessos, fica triste quando tudo passa como um cometa.

A população aumenta. A questão da segurança torna-se mais complexa. Não falta tensão, inquietações da polícia, investimentos contínuos de grandes patrocinadores. Uma festa que rende, concentra poderes midiáticos, corta monotonias e aciona esquecimentos. Muitas cores, sons, criatividade, amizades efêmeras, ruas lotadas. Fazer previsão sobre seus andamentos não tem sentido. Quem brinca guarda seus cuidados, porém olha para a soltura com mais atenção. Há, também, os espectadores que preferem observar e se assombram com a intensidade do frevo. O fermento é especial e o entusiasmo aceso, com muita energia. O Carnaval tem tradições históricas. Não fica parado, contudo, no passado.

Muitos dizem que a vida do trabalho sério só começa depois das celebrações de fevereiro. Não é exagero. Ninguém aguenta uma disciplina rigorosa por muito tempo. Quem não gosta de respirar com folga? Portanto, a cultura se faz com invenções e quebras. As festas trazem certo descontrole. É  melhor do que mergulhar no totalitarismo das burocracias dominantes. É incrível o ir e vir das multidões. Há violências, desrespeitos, incoerências. É muita gente misturada, muita máscara e fantasia, na prática e não, apenas, na especulação. Profetizar um Carnaval cartesiano é desconhecer o humano, cair na melancolia dos que não sabem visualizar e aprender com os contrastes.

As ambiguidades constroem as relações sociais. Nada existe com simetria absoluta. As lacunas passeiam pelo mundo, mesmo que incomodem. Por que esperar do Carnaval atmosferas acadêmicas? Não se praticam tantos absurdos na gestão do poder público? Não se fala tanto em crime organizado, em negociações subterrâneas? As práticas culturais podem ser exemplares, mas, também, colocam dúvidas nas teorias e nas éticas. O inesperado não sai da história. apesar das formas de disciplina, da repressão articulada pela tecnologia das informações secretas. Cabe analisar os momentos e os significados do agir humano. O Carnaval de 2012 não seria, jamais, o Carnaval de 2001.

O capitalismo não se esconde da folia. Espalha suas mercadoria, aproveita as oportunidades com ajuda dos meios de comunicação. Não preciso muita reflexão para sentir o quanto o consumo se dirige para produtos específicos, com a grana das grandes corporações que anunciam a liberdade da alegria. O Carnaval possui espaços de show, não fica restrito aos blocos, às orquestras de rua. Tudo se toca. Não é aquele som único. O espetáculo conta com interesses políticos. Quer atrair, convencer, justificar apoios, aproveitando as animações gerais. O Carnaval descarta costumes conservadores, porém não foge dos esquemas da sociedade programada.

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