O cerco do espetáculo e das informações passageiras

O ano está sendo pontuado de tragédias. A violência acompanha os atos humanos, em lugares antes considerados de sossego e divertimento. Parece que foi escrito um roteiro, com cuidado e paciência, e nós o cumprimos sem se dar conta da gravidade. Os sofrimentos respondem com protestos, as raivas são colocadas em microfones e imagens. No foco dos acontecimentos, as promessas políticas tomam providências urgentes. Não há, porém, garantia de continuidades. O esquecimento ganha espaço e a as perdas atingem os mais próximos. As notícias diminuem seus impasctos e a substituição é feita. Outros atores, outras ficções, outras lamúrias. O importante é que o espetáculo mantenha seu poder de emocionar. Ele desloca-se, com grandes ruídos.

É impressionante , como o sucedido, no Japão, vem se tornando uma lembrança confusa. Permanece a impressão do susto dos primeiros momentos, mas sem aquela imensa dose de desconforto. Poderia ser um filme, uma preparação organizada nos estúdios cinematográficos sobre tragédias  naturais. Os artifícios criam imagens fabricadas. A discussão sobre o real e o imaginário agita os meios acadêmicos, no entanto seus desacertos estão na vida cotidiana. Os controladores da sociedade do espetáculo não se envolvem, em debates, sobre  a verdade. Eles buscam manipular as sensibilidades ou mesmo produzir um comportamento social que atraía pessoas. O trabalho ardiloso, de fixar preços e entender que tudo é uma mercadoria, monta estratégias de convencimento.

A  velocidade das mudanças tumultua nossas relações com o tempo. Há um envelhecimento precoce das coisas e das relações. As informações circulam e se desgastam em minutos. O que era uma novidade excepcional se desfaz, de um dia para o outro. O mundo é do descartável. Vale a informação, sem o aprofundamento das interrogações mais fundamentais. O grande desafio é conquistar o público, sem passar da superfície. O cansaço do corre-corre exige repouso. Conectam-se as intenções e os pactos estabelecem-se no silêncio da fantasia. A mídia, no geral, não desperdiça sua capacidade de persuasão e enlaça os desejos com maestria. Vejam as novelas de sucesso ou as propagandas que insistem no humor e na construção das diferenças sociais.

A radioatividade causa danos irreparáveis. No Japão, o acidentes nas usinas deixou transtornos que demoram se desmontar. As análises não esclareceram muita coisa, apenas alguns países resolveram rever seus programas com energia atômica. Há pessoas, na região do acidente, tentanto impedir os efeitos fatais, sofrendo perigos e, praticamente, condenando suas saúdes. A banalização da morte não se afasta da história. Sofistica-se. Os genocídios não são raros. Elucidá-los é traumatizante. 

A história tem, também , lixos e acumulações.  Existe quem os selecione e trame sentidos para degradação das relações sociais. O espetáculo do circo de subúrbio é frágil. Qual o seu poder de sedução diante da internacionalização das disputas e das imagens coloridas, pensadas para multiplicar milhões? Ninguém expõe as desigualdades, esperando que elas promovam rebeldias. Não há como negá-las. Reforçam o acúmulo de informações, estimulam discursos de raiva e fazem o contraponto com as conquistas celebradas nos núcleos de poder. As ambiguidades humanas possuem seus lugares de culto. Não podem fechá-los. A vida continua.

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6 Comments »

 
  • Paulo Marcelo Mello disse:

    Muito opoturno o texto , como exemlo podemos usar a forma
    como nssos jornais mostram as nossas tragédias diárias de violência.
    Vejam o caso recente da nossa colega aluna da Federal que morreu assassinada em Adeia , tres dias de puro show pirotécnico em
    busca de exploração midiática para venda de jornais.
    Podemos usar também o exemplo do acidente aéreo no vôo Rio/Paris
    ano passado enquanto esta na “moda” era praticamente a única notícia duranete 15 dias , hoje mesmo com as recentes descobertas dos corpos e partes importantes da aeronave , fica apenas no rodapé do jornais .. Onde está a nossa preocupação humanística com as famílias das vítimas?………

  • Paulo

    A vida tem suas passagens contraditórias. A informação ganha espaço na sociedade, mas confunde quanto poderia ser mais investigativa. Poderia atuar mais, porém prevalece o sensacionalismo. Grato.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    Notícia é produto. E como produto, precisa ser vendida. Para ser vendida, tem que ser nova. Como não acontecem terremotos e tsunamis diariamente com a intensidade do que ocorreu no dia 11 de março, necessita-se de outras notícias, novas, fresquinhas para manter a atenção do público. Quem ainda lembra ou comenta do tsunami ocorrido em 26 de dezembro de 2004, que matou mais de 230.000 pessoas? O tsunami do Japão foi catastrófico e provocou danos em uma usina nuclear, matando até aqui cerca de 1.600 pessoas (não esquecer: o de 2004 matou mais de 230.000). A notícia mais importante será sempre a mais recente.

  • ladjane disse:

    O vestibular da FUVEST de 2010 trouxe um tema a ser desenvolvido sobre as imagens e os símbolos na vida humana.Como gosto de fuçar redações de alunos, achei nada mal desenvolverem um tema tão presente em nosso cotidiano.As imagens, por exemplo, veiculadas pelos meios de comunicação de massa,influenciam no comportamento das pessoas e nas suas inter-relações;porque quem manipula a indústria cultural sabe colocar seus ditames sobre os expectadores. Assim,as notícias que se tornam descartáveis causam expectativas naqueles que vivem sempre em busca de novidades; mesmo que essas não sejam verdadeiras nem consoladoras.

  • Ladjane

    Boas observações. Quem descarta, sabe a dimensão das coisas e segue seus caminhos de poder.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson

    O mercado quer lucro e a novidade consegue atrair. Não se valoriza a profundidades das dores, mas seu valor de troca.
    abs
    antonio paulo

 

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