O céu tem cores, as ruas são das máquinas

 

O sol possui, às vezes, um lugar soberano. As águas aparecem menos, depois  de tantos desmantelos. Resistem. O calor não perde, porém, tempo. Nuvens soltas e roupas mínimas. Nessas horas, procuram-se ventiladores e ar-condicionados. Uma obsessão. Muda-se de temperatura. Ninguém suporta expor-se aos brilhos do dia e refugia-se nas cavernas comerciais. O consumo ganha adeptos, quase espontâneos, e comemora seus êxitos. Em cada canto da cidade, vende-se alguma coisa. Nem o domingo é poupado, muito menos os dias santos. Os feriados tornam-se preciosidades.

Já se foram os tempos em que o silêncio incomodava os mais inquietos. Os sonos se prolongavam e o fazer nada estimulava as agências de boatos. A cidade não para, há sempre algo funcionando. Os ruídos não se intimidam  e atrapalham a concentração. Quem mora, em grandes avenidas, não consegue sossego. Além do mais, a violência urbana vive de prontidão. A página policial não dá conta dos crimes cotidianos. A população move-se, com sensações tensas. Quem acredita que seu celular não será roubado ou suas poucas economias trocarão de bolso?

As máquinas reformam-se e atualizam seu poder de sedução. A meta é fazer fluir as aventuras do capital. O que vale é o dinamismo. Técnica apurada, com negócios ativos. As calçadas são estreitas e as avenidas largas. Mesmo assim, há muitas dificuldades. Os automóveis ocupam espaços. Pouco respeitam as andanças dos pedestres. A grande metafísica não é a de Aristóteles. Tem-se que calcular cada saída, com planejamento. Já pensou se quero, no domingo, assistir a um clássico de futebol?  E um show de Ivete Sangalo? Desafios que atordoam  os mais fanáticos.

A substituição do trabalho humano, pela inteligência das máquinas pós-modernas, trouxe agilização do cotidiano. No entanto, esticou a ansiedade e deletou os desejos mais lentos. Quem se apresenta, com ares depressivos, causa má impressão. Ficou marginalizado. É  identificado como  incapaz de entender o ritmo que nos acompanha. Saudade de um tempo? Tenho saudade é de não haver tempo (Mia Couto). Como as dissonâncias dos sentimentos e das lógicas das convivências se agigantaram com a pressa ! Meu nome é urgência. Nosso nome é urgência.

O discurso contra a tecnologia possui seus exageros. Não estamos com nostalgias românticas. A fantasia do paraíso passa por crises contínuas, por mais que as religiões e as utopias se esforcem. O retorno não é sinal de que as indagações se afastaram dos nossos corações. Simplesmente, ele não é possível. Se existe o mal-estar, a ousadia é compreender suas ambiguidades. O conforto conquista. Há quem suporte  masoquismos. Mas será que certas máquinas não perturbam e desfazem afetos de forma agressiva?

A ficção científica busca outras profecias e invenções assustadoras. As telas de cinema traduzem projeções de sociedades pós-humanas. Uma confusão imensa, na construção das hierarquias , com  arquiteturas sombrias e estrelas incomodadas com as manobras das máquinas-voadoras. Surgem, também, modelos híbridos.Rostos com desenhos bizarros, mas promotores de modismos.  Mia Couto pergunta: Depois de tudo, sobra o quê? O não tempo, nossa mineral essência. Se de alguma coisa temos que tratar bem é do esqueleto, nossa tímida e oculta eternidade. Será?

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6 Comments »

 
  • Geovanni Cabral disse:

    Caro amigo Antonio Paulo,a partir desse momento serei um seguidor ou melhor um leitor dessas reflexões acerca da vida e do nosso tempo. De fato vivemos em uma sociedade onde o instante agora é a pedra fundamental. Não importa o passado, a história ou muito menos os exemplos. O que nos cercam são máquinas, consumos, tecnologias, sedução!! Seguimos perdidos muitas vezes ou sempre mergulhados em manobras dessa pós-modernidade. Olhamos para os lados e nos sentimos estranhos entre carros e avenidas. A quem suspira e busca na memória resquícios de um tempo em que tudo era diferente, outros seguem na profusão das coisas. A nossa vida é dessa forma, inserida em contextos desgastantes, entre ruídos, sonhos e fantasias.Nas palavras do Mia Couto, podemos ancorar na ideia de que não podemos perder a nossa essência e tomar conta de nossa intimidade para que ela não se dilua no asfalto do esquecimento.

  • Rosário disse:

    professor,

    Depois de uma semana entre o sol e as cores do Sertão, volto a ler seus textos.
    Lá as nuvens cotinuam soltas e o sol entende-se pelo Vale de São Francisco. No paralelo 8 produz-se vinhos translúcidos e aromáticos. Certas cores não mudam. Parece certo que o conforto e as máquinas conquistam. Mesmo que o zelo pela tradição pareça grande, o que impera é uma confusão de imagens. E lá, onde tudo parece fixo tem-se saudade do tempo. As máquinas e as águas movem homens, mulheres e até mesmo o rio.
    Lá, o céu tem cores e a terra, máquinas.

    Abraços

  • Rosário

    Cada lugar com as suas histórias. O importante são seus tradutores. Você colocou seu coração nas coisas que viu.
    Bom retorno.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia Campos disse:

    Antonio
    Voltei da Universidade ouvindo as líricas de Zeca Baleiro e Fagner “… palavras e silêncios que jamais se encontrarão…” e, ao mesmo tempo pensando que, no texto, eles se encontram. As palavras, os silêncios, as cores, o sol, os brilhos do dia, as cavernas da alma, o tempo, os sonos, os sonhos, o amor, as perguntas, as dúvidas…
    Quem possui o lugar mais soberano, Rezende? O sol, o tempo ou o tudo?
    De tudo, sobra o que?
    Qual o “tudo” a que se refere Mia Couto?
    O tudo vivido, sonhado e (ou) narrado? Como saber se já é o tudo, em meio ao complexo tempo vivido,o tempo não vivido ou ainda por viver?
    Vamos tratar bem do nosso esqueleto, mas desconfio que ele não seja o único esconderijo da nossa “tímida oculta eternidade”.
    O coração parece está mais apto para nos fazer apreciar as cores do céu e desviar das máquinas nas ruas.
    É ele que nos recompõe dos medos, da violência, dos ares depressivos, da tristeza…
    É ele que nos diz:
    “Nêgo sinta-se feliz
    Porque no mundo
    Tem alguém que diz:
    Que muito te ama!
    Que tanto te ama!
    Que muito muito te ama,
    que tanto te ama!…(…)”
    É ele que nos deixa,
    (…) “com uma vontade danada
    De mandar flores ao delegado
    De bater na porta do vizinho
    E desejar bom dia
    De beijar o português
    Da padaria…” (Telegrama – Zeca Baleiro)
    Mesmo admitindo certa dose de romantismo (nada contra, de vez em quando) aposto no Amor (o sentimento que nos aproxima, nos solidariza, nos reconstitui com os outros em uma fraternidade universal e o amor apaixonado que nos faz enxergar as cores no céu) como um antídoto poderoso para fortalecer a nossa “mineral essência”, em meio a essa luta maior contra a pós-humanidade.
    Que venham todas as cores!!!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Nada como acreditar na cores e segui-las com seus significados. A multiplicidade do mundo nos chama para a vastidão da alma.
    bjs
    antonio paulo

  • Geovanni

    É a pressa que não nos deixa contemplar e ter sossego. É ótimo tê-lo como visitante. Assim , vamos olhando o mundo.
    abs
    antonio paulo

 

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