O charuto de Freud

                                            

A sala está fechada, pois o silêncio pede reflexão e escuta. Freud mostra atenção e nem se lembra do seu charuto ambíguo: prazer e morte associados. Freud sabe que é preciso mergulhar no inconsciente, para decifrar sinais confusos da vida. O erro chama a verdade e a verdade chama o erro. As contradições viajam pelas relações sociais. Não há histórias sem turbulências e enganos, mas elas se contam em todos os lugares, sem expulsar os fantasmas.

Os escritos de Freud deixaram marcas extensas. Continuam circulando com força. Na sua época, assustou muitos, não negando a importância do sonho e do afeto. As pulsões de morte passam pelo mundo, empurram para perto dos abismos e precisam de ilusões. Quem não se choca com o desfile constante de informações que povoa a sociedade? Há quem, cinicamente, se divirta, queira aglomerações festivas e explore qualquer ingenuidade. Morde a obscuridade com sede e maldade.

Freud via com olhos acesos o mal-estar produzido pelas civilizações. Procurava o que estava escondido nas conversas. Desconfiava dos amigos das certezas. A incompletude não é presente. Temos que lutar para superar as falhas, pois tropeçamos num pedaço de papel. As vaidades não cessam de se espalharem. O que desejam substituir? As respostas transformam pertencimentos. Basta analisar as agonias de Édipo, as vinganças cotidianas mascaradas por perdões.

Mesmo a arte não nos livra da dor. Os deuses dançam, dizem alguns cheios de dúvidas. O charuto ajudava Freud a despertas ideias. Como viver sem observar os gestos de cada um? As culturas trazem saberes e mitos, buscam compreender as tragédias que punem alguns ou todos. A medida do tempo é vacilante. Deitar-se no divã, falar de si, talvez desenhem migalhas de aventuras. As cinzas dos charutos não fazem milagres, Freud morreu triste com a violência. Será o abraço uma arma ou um vírus?

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …como práticas de si, o ato de falar de si no divã e poder identificar as próprias contradições que se nuntrem no interior de cada um e no contato com o coletivo. Freud, o pai da psicanálise, da emergência de uma terapia de si, uma invenção localizada no tempo entre o final do século XIX e o início do século XX e que intencionara produz alívio para as almas atormentadas. Atormentadas num mundo de afetos dúbios e capitaneados por interesses mesquinhos. Freud fez história, multiplicou seguidores e refletiu sobre tormentos processados no inconsciente das pessoas e suas interações num mundo organizado por uma ordem dominante perversa, desigual e violenta, onde muitas vezes, as angústias surgiam e cresciam sem explicações plausíveis, mas puderam ser estudadas e pensadas com ajuda daquilo que Freud inventou e nomeou como psicologia…

 

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