O choque da notícia no mundo da multiplicidade

Quem se dedica à pesquisa histórica não deixa se renovar com as novas tecnologias. Já se foram àquelas fichas enormes transcritas com muito esforço. O historiador muda seu percurso. Tem pressa. Sente seus prazos diminuindo, o mundo da informação se ampliando. A história possui  ligações fortes com o passado, mas o presente exige reflexões, diálogos com os tempos vividos. Estamos diante de outros acervos, a memória busca significados e o debate não cessa. A sociedade não consegue acompanhar as perplexidades cotidianas. Os saberes ganham espaços, se misturam. Há gente especialista em detalhes, outros fogem do lugar comum.

A notícia não perde fascínio. Uma  conversa chama divergências e afetos. Ninguém vive sem olhar o que se passa. As novidades fazem a parte das rodas sociais. Não há uma fixação em verdades. Muitas fantasias  aumentam garantias e riquezas. Transformou-se a modernidade, a questão da liberdade se reveste de outros conteúdos, a aldeia global quer cores e formas que não sejam tímidas. O mundo é um grande espetáculo. Basta ir para as ruas, visitar os shoppings, observar as construções de torres festejadas pela especulação imobiliária.

A notícia corre. Traz fama, porém destrói lendas. Essa velocidade é inusitada. As perdas são repentinas, pois as acusações têm, por vezes, gratuidade. A ética se estica. Como compreender tantos desconcertos e metamorfoses? Por isso, a verdade se balança, as pessoas atacam e defendem, sem visualizar os sinais. Parece que há algo lúdico em falar dos outros ou em inventar tradições.  Não esquecer que o fetiche da mercadoria não se acanha. O capitalismo não habita apenas os bancos ou as indústrias. É uma epidemia astuciosa, com vírus instável e poderoso. O descuido aprofunda ingenuidades e mistura pesadelos.

Portanto, a velocidade acompanha todos os trabalhos e ofícios. Há resistências, Não existe unanimidade, contudo há hegemonias que não são rígidas. Formular valores, traduzir limites, delimitar territórios. Será possível configurar o mapa de cada instante? Por onde andam as possibilidades, os pactos, as sincronias do tempo? O historiador observa o movimento. Recorre a metodologias. Reler Chartier, Marx, Foucault e tantos outros. Podemos conhecer pensamentos, adotar teorias e seguir adiante. Firmar ortodoxia é uma trilha, mas não a única. A febre da notícia, que desmonta e refaz análises, se compõe com as idas e vindas da mercadoria. A flexibilidade é parceira das suas palavras.

O jogo da política se complica. Ele se alia ao pragmatismo. Há dizeres anônimos que apagam compromissos ou os relativiza ao extremo. O historiador não deve perder o fio da  conversa. O vivido não merece a lata do lixo. Desconectar a história é arrastar as sociabilidades para o abismo. Mesmo com a pressa, a referência é um espelho. Zerar a cultura é desprezo pelo passado. A história existe porque não largamos os tempos, mergulhamos nos seus oceanos, não extinguimos o cais que nos recebe e nos anima. Se tudo se despedaça, o historiador abraça a derrota, não transcende. A notícia é mercadoria, mas o absoluto não tem sentido. Por que redesenhar as máscaras?

 

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