O circo não é de lona, a bola perde-se na arena

Nada de discursos de apologia ao passado. Acredito em mudanças, não fico chorando de saudades, porque existem paisagens de concreto soberanas nas formas urbanas. Tenho certas antipatias pela exaltação desmedida do progresso, sobretudo aquele coberto de acumulações e utilitários. Sei que o equilíbrio é uma utopia. A balança sempre se descontrola. Não custa, no entanto, imaginar um mundo equilibrado, um certo  encanto das harmonias, misturadas com as dissonâncias.

Há lugar para todos. O romantismo de Chopin pode conviver com as ousadias de Stravinsky. O samba de Noel tem céu aberto para escutar as ironias de Raul Seixas. Os poemas de Neruda tem moradia nos versos de Drummond.Os dribles de Garrincha podem navegar nos oceanos de Ronaldinho. A simultaneidade não é um mal. Ela registra a complexidade da vida. Tira do eixo os que se deitam na lineridade  melancólica da Avenida Central. A cerveja não se estranha com o sabor de licor. Cada um divaga na sua busca, sabendo que o absoluto é uma miragem.

Divirto-me vendo jogos na TV. Quase todo o dia, para espreguiçar as tensões e amolecer as lembranças. Contrario-me com as jogadas pouco elaboradas. Comento a crise de talentos. Todos seguem muitos jovens para o exterior. Se os craques invadissem os gramados com suas firulas, os estádios estariam cheios. Mas o caminho é  inverso. Querem construir arenas portentosas, mesmo que o futebol padeça de desenhos mágicos. O que marca é a arquitetura, movida a milhões de moedas internacionais.

O conforto dita as leis. Os circos perderam suas lonas. As habilidades dos seus astros são vistas em luxuosas casas de espetáculo. O preço, lá em cima, hierarquiza o acesso. O mesmo destino tiveram os cinemas de subúrbios. O que vale é a segurança e a poltrona, com a moldura do corpo. Se a inércia for grande, instale uma tela, com um sistema de som e imagens atualizado, e deixe o DVD se espalhar pela sala escura. Seja dono do seu cenário.

Tudo parece maravilhoso. O recolhimento evita sobressaltos. Na dispensa, armazene batatinhas e chocolates. Não esqueça do telefone sem fio. Você consagra a tecnologia de ponta, embora o tédio de ficar, sempre, em casa passa  por uma cabeça sem idéias. Chame Baudelaire, o poeta da modernidade. Difícil, ele já se foi, porém desconfiava da sinfonia do progresso. Então, um livro dele, junto da cadeira, e, vez por outra, acorde a mente lendo versos proféticos.

A mobilidade  das prestações ajudam a modernizar seu ambiente doméstico, acalmar seus brios de torcedor enlouquecido. Sua solidão pode ser amenizada. Junte os amigos e compre um pacote do Brasileirão. Maravilhosa alternativa, para mostrar o prazer que seus rendimentos proporcionam. Vibre com seu futuro, com o cheiro do eletrônico. O plástico resolve tudo, desde que tenha as siglas dos créditos mais badalados. Aproveite e não enferruje  muito a cabeça. Por que não fazer uma semana, com os shows dos Beatles e com filmes de Fellini? Quebra a rotina. Se preferir, grave os melhores momentos de Sport e Ipatinga. Teus amigos rubro-negros vão adorar.

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4 Comments »

 
  • Flávio disse:

    AP,

    Não sei se você conhece Wislawa Szymborska, poetisa polonesa. Mas quando li esse poema dela, lembrei de você.

    FOLHETO
    (Wislawa Szymborska)

    Sou o comprimido calmante.
    Actuo em casa,
    sou eficaz na repartição,
    sento-me no exame,
    apresento-me em tribunal,
    colo minuciosamente a louça partida.
    Basta que me tomes,
    que me ponhas debaixo da língua,
    que me engulas
    com um copo de água.

    Sei o que fazer na desgraça,
    como aguentar a má notícia,
    diminuir a injustiça,
    desanuviar a falta de Deus,
    escolher o chapéu de luto a condizer.
    Por que esperas?
    Confia na piedade química.

  • Flávio

    Que belo poema! Tens alguns livro dela ? Estava sentido a sua falta.
    abraços e saudades
    antonio paulo

  • Flávio disse:

    Já procurei na internet e não achei nenhum livro dela em português (só em inglês e alemão). Mas olha só esse outro poema…

    Autotomia

    Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
    deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
    salvando-se com a outra metade.

    Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
    em resgate e promessa, no que foi e no que será.

    No centro do seu corpo irrompe um precipício
    de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

    Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
    Aqui o desespero, ali a coragem.

    Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
    Se há justiça, ei-la aqui.

    Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
    Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

    Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
    Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
    Em corpo e poesia.

    Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
    leve, logo abafado.

    Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
    três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

    O abismo não nos divide.
    O abismo nos cerca.

    Maravilhoso, né?

    Grande abraço.

  • Flávio

    Muito belo. A poesia ainda é soberana. É palavra viva, não tem igual. Emociona.
    abraço grande
    antonio paulo

 

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