O conforto, a emoção, o poeta: o futebol nas cavernas

Cada época possui suas manias. Os hábitos mudam. Poucos conseguem atravessar séculos. No mundo da velocidade, o descartável é o rei.  Esquecemos o ontem, com uma rapidez incrível. A contemporaneidade é o tempo dos anúncios de máquinas fantásticas, das visitas aos shoppings centers. Os templos se redesenham e as orações se reformam.

O altar do computador oferece-me a oportunidade do blog. Não recuso. Por que não mergulhar nas experiências, sem atacá-las, para se mostrar astucioso ?  O perigo é transformá-las em fetiches. Recusar a dança é perder o fôlego da sensibilidade, acreditar no culto à permanência. Tenho dúvidas sobre o que trará de felicidade os artifícios codificados, mas o  importante é não abandonar a crítica.

Era um frequentador dos estádios de futebol. Não perdia jogos da cobra coral. Estava até nos treinos. Colaborei com a campanha para contruir o Arrudão. Vivi isso , intensamente, até os 22 anos. Depois, minhas idas ao futebol tornaram-se raras. Não deixei de ser torcedor atento. Quando leio o jornal, o que me atiça mais a curiosidade é a página esportiva.

Não firmei uma distância das minhas paixões pelo tricolor. Acho o esporte  um criação humana de valor inquestionável.  Muito intelectual subestima o vaivém do futebol, não observa como ele está articulado com a cultura, nos seus detalhes mais escondidos. O olhar de censura denuncia, muitas vezes, egocentrismo ou vaidades mesquinhas.

Não escapemos da diversidade. Dialoguemos. Meu afastamento dos estádios não é à toa. Entra na vida cotidiana que me cerca. A televisão me traz partidas de todos os lugares, de todos os campeonatos, dos mais diferentes continentes. O poder dos meios de comunicação não se acanha. Ele quer convencer, acomodá-lo na sua caverna. Aquela sentença fatal: saiba de tudo sem sair do seu divã.

Nem Freud seria poupado. Hoje, vejo o futebol, mergulhado no conforto. Tenho canais espertos e imagens cativantes. Estico minha preguiça, sem vergonhas. Descanso é bom, pensar outros universos é saudável. As repetições das jogadas e as minúcias das disputas aquecem especulações. A pergunta: onde mora o limite de tantas travessuras ou o que se disfarça por detrás das máscaras da telinha?

Uma lembrança do poeta Vinícius de Moraes: a vida vem ondas como o mar. Desviar-se dessas ondas pode provocar transtornos. Não custa, porém, senti-las, perceber sua temperatura, contemplá-las. A inquietude não merece desprezo. Aceitar todas as alterações que as máquinas aprontam, sem hesitar, é embriagar-se com uma perigosa alienação.

 O futebol na tv é atraente, mas nele existe uma complexidade maior. As artimanhas sucedem-se . Não apaguemos as incertezas,  o desfiar inconstante  do lúdico. O poeta sabia que o ritmo das ondas não é inimigo das dissonâncias. O mundo gira, incansável.

Dentro da minha caverna, elejo fantasias e a rua ganha estranheza. O futebol não se resume aos encantos das tvs, nem ao conforto dos divãs. Não adormeci nos fascínios, apenas os utilizo. O poeta Vinícius também alertou que a vida é a arte do encontro, embora haja muitos desencontros pela vida.  Acredito nos poetas e reverencio as suas palavras.

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6 Comments »

 
  • Luana disse:

    Paulo, fiquei sabendo do seu blog através do professor Marcinho e não me arrependo de ter dado uma espiadinha aqui !!
    Não entendo muito de futebol, porém seus textos nos levam a fazer uma boa leitura crítica dos diversos temas escritos !!
    É uma leitura fascinante !!!

    Parabéns pelo blog !!

  • Luana

    Grato pela visita. Não deixe de se sentir à vontade, para chegar perto do mundo através do futebol. A cultura humana se interliga em todos os espaços.
    abs
    antonio paulo

  • Aline disse:

    acredito em um mundo ainda confuso com tantas inovações. Nós, que somos filhos da tecnologia, não sabemos o que é viver sem esses “artifícios codificados”. No entanto, também me aflinge a possível comodismo e abandono do senso crítico observado na sociedade, devido à influência dos mesmos.. por isso espaços como este, com textos concisos e bem escritos, são importantes ! parabéns! também sou aluna de Marcinho;

  • Aline

    Muita mudança altera valores e sentimentos. Mas há espaço para solidariedade. Vamos mantê-la. Grato pela visita.
    antonio paulo

  • pedro pachêco disse:

    Prezado porfessor Antônio Paulo, concordo que o conforto é algo essencial. O descanso também. Porém vejo o futebol, e mais ainda os jogos do meu clube do coração (Santa Cruz) como algo extremamente romântico. Ir ao encontro da cobra coral, vê-la de perto é algo que não consigo trocar pela televisão. O dinamismo, o fervor, a paixão, o amor, a inspiração, o contato com o povo, os abraços aos desconhecidos na hora do gol como se fossemos amigos de infância é algo que a televisão consegue transmitir. Nós estádios de futebol, e, em especial nas repúblicas independentes do Arruda, me sinto renovado. Respeito a opnião daqueles que não vão a campo, acho até justo alguns dos argumentos citados para aliceçar tal idéia, como por exemplo a violência. Porém acho que no estádio as emoções ficam a flor da pele como diria o tão querido Chico Buarque.

    Abraços

  • Pedro

    A emoção faz parte da vida. Anda por todos os cantos. Mexe com os ritmos do coração. Não há como negá-la. Procuro mostrar o que a tecnologia traz de diferente. Nem por isso, renego os sentimentos. Se houvesse mais solidariedade e sensibilidade o mundo seria outro. Devemos cuidar de não sermos escravos do descartável. Manter a autonomia é básico, para quem cuida da sua vontade e nega o indivualismo atuante e cínico.
    abraços e grato pela força tricolor
    antonio paulo

 

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