A política: traços e armadilhas da sedução

A dominação social não se faz, apenas, pela coerção. A  violência e a opressão possuem participação ativa nas relações sociais. Os senhores do poder não deixam de recorrer, porém, às astúcias e à força das invenções que correm a história. Não foi a modernidade que trouxe a persuasão política. Ela a sofisticou, mas não esqueçamos de que a cultura apresenta suas produções em ritmos variados. A barbárie não se afastou da convivência, mesmo depois da defesa da liberdade em teorias e revoluções. As dissonâncias mostram que os tempos históricos recusam linearidade e a consagração do progresso.

Tudo é isso debatido, há quem  insista no discurso dos avanços e recuos, do atrasado e do desenvolvido, hierarquizando preconceitos, justificando soberanias. No mundo atual, a complexidade e a presença dos meios de comunicação afirmam velocidades fabricadas pelos encantos das imagens. Quem domina não poupa estudos de mercado, não só para avaliar a moda e as possibilidades de lucros, mas também para sentir como andam as relações de poder. Os planejamentos dos governos não dispensam jogos de cores e palavras. Muitas ações ficam neutralizadas pelas máscaras e ilusões que transmitem. As eleições não negam que a sociedade pede o fôlego.Elas investem, contudo, na forma e  disfarçam   algumas mesmices.

Quem não se lembra dos encontros de Hitler com as multidões, dos programas de rádio na época de Vargas, da articulação das TVs com as programações oficiais? Discute-se o detalhe, pois se busca o sucesso. A dimensão estética sofre transformações. O capitalismo financeiro traça outras rotas, segue pragmatismos, esvazia as questões ideológicas, massificando opiniões, exaltando a necessidade do conforto, visualizando paraísos, construindo discursos arquitetados com cuidado e convencimento. As novidades tomam conta do imaginário, suavizando desconfortos e garantindo futuros promissores.

A história registra mudanças nas concepções de poder. Elas são importantes, porém nunca absolutas. Os esquemas totalitários nazistas não conquistaram o mundo. Sofreram derrotas marcantes. Nem por isso o passado se apaga sem desenhar  vestígios. Existem grupos políticos racistas que admiram teorias etnocêntricas. Há quem não escape de elogiar a supremacia de culturas e enfatizar acomodações. Portanto, movem-se ideias que pareciam adormecidas. As manifestações políticas não são únicas nas  escolhas e as dominações se balançam com o inusitado.Lembrar o fluir das sociabilidades é aprofundar a análise sobre as convivências sem enquadrá-las num modelo perene.

A democracia é o grande espelho. Não dá para pensar uma sociedade diferente admitindo portas trancadas e obscuridades. É difícil quebrar as desigualdades, mas deixar que elas se naturalizem é consagrar o pesadelo. Diante de tantas enganações, o silêncio não pode ser uma forma de resistir. Quando tudo se aquieta, a dominação se expande, sem alarde, com objetivos estratégicos estudados. Até nas relações pessoais a sedução busca seus cenários. O que se consagra com as suas artimanhas depende dos sujeitos que a compõem. Desejamos clareza que são, muitas vezes, inalcançáveis. O cômico e o trágico desmancham fronteiras e ambições. Bordamos mantos que nos protegem, mas a incompletude não foge e nos lembra que há mundos e incertezas desfiguradas.

 

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