O coração batendo no vasto corpo do mundo

Enterrem meu coração na curva do rio, título do livro de Dee Brown que critica a história oficial e reler as aventuras dos índios norte-americanos, com interpretações marcantes. Coloca dúvidas nas versões conhecidas e exibidas nas salas de cinema. Quem não as viu? Preconceitos e violências  devem ser denunciados. Eles compõem as colonizações internamente, não necessitam da presença do estrangeiro. Portanto, nada melhor do questionar absurdos e mostrar os golpes dos vencedores na construção das memórias. Os choque de culturas não são incomuns e revelam poderes com diferentes sentidos. Tudo isso merece ser relembrado e debatido, para salvar a ética e a dignidade.

Trago para berlinda outras polêmicas: a palavra coração e seu vasto território. Visito os sentimentos visíveis e os escondidos. Afloro seus significados, como eles mudam e nos acolhem. São inquietos e imprevisíveis. Decepções, desamores, paixões, fracassos,desmantelos. Não cabem numa gaveta de armário, mas se vestem de farrapos e fantasias. Confrontam-se com muitos sinais da lógica moderna. Desviam-se dos racionalismos e dos cercos da ciência. Não são, permanentemente, indecifráveis, porém atiçam desandares e pesadelos. O mundo secularizado requer princípios que não se esgotem nas fés religiosas. Há reformulações, nas práticas cotidianas ,velozes e nebulosas.

Nem todos embarcam nos navios do progresso. Os olhares sobre a modernidade alteram as direções da vida e pedem fôlegos desconhecidos. Kant, Marx, Darwin, Nietzsche, Freud, Comte, e tantos outros, montaram suas cartografias para explicar as metamorfoses crescentes, a queda de valores, antes inflexíveis, as tramas da industrialização se entendendo pelo mundo. Mercados, nações, repúblicas, guerras, diplomacias. A vigência legal do trabalho assalariado não assegurou a liberdade de escolha. A democracia não se afastou das suas instabilidades. Tergiversa.

A ordem capitalista se consolidou, com seduções e desconfortos. Os românticos não se descuidaram das coisas do coração. Leia Novalis. A razão não desfrutou da sua soberania, sem ataques e inconformismos. Não há uma sociedade, absolutamente, silenciada e desmotivada. Os sentimentos se movimentam nos trapézios do corpo, nas idas e vindas das sensibilidades. O circo não deixou de ser moradia dos anjos e dos palhaços. De todos os cantos podem surgir harmonias e dissonâncias. Não se engane com aqueles que dizem possuir o controle radical das relações. Desconfie de reflexões filosóficas, como dos dogmas que profetizam o juízo final. Não cegue diante de discursos da salvação. O coração habita o corpo do mundo, não é mensurável na exatidão dos objetos.

A solidão convive com a agitação da sociedade. Está atenta às ousadias e às astúcias. Por isso, que as resistências sobrevivem e pulamos abismos, quando tudo parece desfeito. Não podemos viver sem geometrias, nem gramáticas, mas elas se transformam, apesar dos seus vestígios remotos que nos acompanham. Para cada época, o coração tem suas batidas. Imagine como batia o coração de Vivaldi, de Descartes, de Chaplin ou daquele vendedor de pipocas que passava pela rua principal. Já se escutou? Ou prefere ouvir as notícias do Jornal Nacional ou os choros da novela das sete? O começo está dentro de nós, é quase imperceptível, mas provocador.

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2 Comments »

 
  • Valerio disse:

    Antonio, consegues aliar beleza às tuas visões de mundo.

    Fazes a diferença nessa mesmice pasmacenta que permeia de lugares-comuns a blog-esfera.

    Que bom que é assim, ou seja, que haja vida inteligente a emitir bem mais do que voláteis sinais de fumaça disperçados antes de compreendidos e, pelo contrário, escrever com clareza a um só tempo suave e contundente.

    Até breve.

  • Valério

    Grato pelo estímulo. É bom compartilhar com a solidariedade dos amigos. O mundo merece que o diálogo se abra para coisas dignas de sensibilidade e alegria.
    abs
    antonio paulo

 

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