O carnaval: as andanças embriagadas da vida

Os ruídos não se ausentam. O carnaval passa, mas os ouvidos escutam ressonâncias e esperam. A festa do desejo é incansável. Deixa saudades, porque há sinais de que o mundo vai ganhar outro ritmo. O tempo redefine os trabalhos e aumenta os problemas. O carnaval anunciou, para muito, um paraíso. Há uma febre contagiante e uma embriaguez solta. Nada como as fantasias, as loucuras do corpo, as trajetórias das mãos carentes. Tudo é possível, dentro de um efêmero tonto e vadio. A diversão produzida possui seus perigos, esconde sua amarguras, transforma as ruas em cartazes. Quem escapa da ruína não consegue traçar sua história.

A alegria não se espalha como um cometa. Há lugares onde as guerras acontecem, onde as pessoas se suicidam, onde os ladrões tramam, onde os perdões se desfazem. Quem pensa, apenas, no visível se envolve com os delírios. Existem inquietações dentro de cada de um, sentimentos de perdas e angústias se balançam nas nostalgias mal esclarecidas. Temos vidas, temos escorregões, temos acidentes. Um mundo sem ousadias é um mundo sem fantasmas. É preciso  que haja complexidade para que tudo se mova e o azul peça socorro ao vermelho. O susto é ponte do renascimento. Cuidado e não se engane: não existe festa democrática na sociedade capitalista.

Tudo poderia começar com um frevo solene, um bloco esfuziante, uma cerveja gelada. Mas as descontinuidades marcam, desconstroem, acinzentam. Portanto, na imagem cabe tudo, ela não nos livra dos desperdício da dor. Organizar as lembranças do passado traz desenhos esquisitos. Nunca saberemos qual o lugar mais sossegado, qual o instante da fatalidade. O controle é uma miragem. A ordem é uma desordem que empalidece.A escassez da reflexão trai quem pinta as saídas dos labirintos. É melhor não buscar sentido, apostar na travessura inventada.

O tocador quer beber, o folião quer fugir. O carnaval é um quebra-cabeça. Não há diferenças radicais nas brincadeiras coletivas. Os gritos não ficam parados no ar, as máscaras tornam o deboche permitido, as religiões se enchem de pecados. Os deuses dançam e torcem como se fossem imperfeitos. Estão cansados do mundo que arquitetaram. Descuidaram-se dos retoques finais. As navegações da vida fabricam turbulências, porém as calmarias chegam para aquietar as ondas. Tudo se guarda, não há como expulsar as melancolias.O transitórios habita em todos os territórios.

Os mapas foram rasgados. Siga os desvios e adormeça nas esquinas. O adeus não significa o fim, porém causa arrepios. Ninguém adivinhar o dia de amanhã que pode nem se efetivar. Cada um borda seus sonhos, empara os sonhos dos outros, ou desiste de bater em portas fechadas. A história não está no bolso da calça do prefeitos, nem no cofre do governador. Ela é resultado das ações coletivas, embora esteja repleta de desigualdades e de passados obscuros. As escritas do tempos são traços velozes. Pouco. elucidam. O pior é contemplar o mundo, como um descompromissado. Levantar a poeira garante movimentos.

 

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