O desconforto da dúvida e a religião do futebol

Quem despreza o futebol não conhece sua força diante das crenças de muitas pessoas. A modernidade trouxe as novidades cartesianas e as reflexões iluministas. Desmontou tradições religiões, mas as mudanças não se dão sem vestígios do passado. Não pense que o racionalismo desfez os mitos e sufocou os mistérios. Aqueles que exaltam o reino das rupturas deixam de ver as permanências. As sociabilidades não se extinguem num passe de mágica. O território dos dogmas pertence aos que precisam acreditar no ritmo das salvações. Por isso, as culturas contemporâneas conservam uma complexidade incessante. Rituais do passado não se desmancharam, acolhem e respondem inseguranças. As invenções da tecnologia não produzem homogeneidade. Há rejeições e desconsolos.

É difícil se restringir a fórmulas para compreender a história. A nostalgia não é modismo vazio. Ela tem eco em muitos corações. As lacunas mostram que as faltas compõem as narrativas de cada um e as estimula. Parece uma especulação sem sentido, porém os exemplos acontecem. No futebol, há praticas de fanatismos, torcidas organizadas que cantam hinos, rivalidades com adversários considerados insuportáveis, sacrífícos financeiros, fidelidade  às paixões clubísticas. O sofrimento não é motivo de afastamento, porém atiça desejos e promessas.Há muitas histórias que demonstram que o futebol é, para alguns, uma religião.

Ele não existe sem o delírio, sem o encanto pelas jogadas dos craques, sem orações antes das partidas tensas. Há torcidas de trajetórias exemplares. Observe as do Barcelona, do Flamengo, do Sport, do Bahia, do Santos, do Corinthians, do Santa Cruz… Basta ler as notícias dos jornais, ouvir entrevistas e conversas nos ônibus e nos bares. Mesmo que não se sinta motivado pelas sutilezas dos esportes, concentre-se e mergulhe na multiplicidade de emoções que eles proporcionam. O futebol, sobretudo, seduz multidões. Espalha sua força pelo mundo inteiro. Neymar, Messi, Maradona, Pelé, Ronaldinho recebem homenagens constantes, provocam deslumbramentos com suas jogadas e as memórias das suas artes.

Não é a garantia da vitória que sacode o fanatismo. Há times que vivem momentos de derrotas, mas que não perdem seu elo com os gritos dos apaixonados.Portanto, os estádios se transformam em altares que comportam milhares de seguidores dos ídolos e das cores abençoadas. Instigam mais que os discursos políticos. Trazem agressividades e transcendências. O gol é êxtase, ressurreição, alegria incomum. Não se trata de desenhar ficções. Tudo está muito próximo. Esconda-se dos preconceitos, revire os intelectualismos arrogantes e não subestime as interioridades da cultura. Nem tudo exige explicação. A clareza pode ser um mito.

A vida é montada com peças surpreendentes e as buscas riscam caminhos inesperados. O Santa Cruz tem levado multidões aos jogos, depois de anos de amarguras frequentes. Os números não negam. Os tricolores não desistiram de acreditar na volta por cima, porém o voo final flutua lentamente e as desconfianças se acendem. A religião das três cores sofre abalos. O desconforto não está no calor do sol, na dureza do cimento das arquibancadas. Alguma coisa se ausenta na hora da decisão. A fé empalidece, a esperança se acanha, a ansiedade se configura.

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