Os deuses e os anjos: desejos, dúvidas, crenças

Não tenho intimidade com os deuses. Olho as crenças de longe. Respeito quem crê, mas suspeito bastante do caráter de quem finge crer. Sou partidário de uma história indefinida. Não sei quem é a criatura, nem quem é o criador. Os deuses existem para preencher nossos vazios, estimular obediências, exaltar o sagrado. Sou ético, solidário, afetivo. Não sinto necessidade de orações submissas. Observo que as religiões se encontram num sufoco imenso. O papa Francisco tem abalado os conservadores com suas declarações. Ele toca em assuntos antes proibidos. Causa arrepios. Desmonta grupos articulados com uma fé desbotada.

Cristo foi um revolucionário, porém não se fala nisso. Há muitos negócios nas religiões envolvendo políticos, meios de comunicação e práticas capitalistas. Dê uma circulada no facebook, acompanhe as notícias nos jornais.  analise as opiniões de certas figuras. Esquecem o passado. Não se lembram que Cristo defendeu a igualdade e foi contra a ordem dominante. Hoje, são raros os quem divulgam a palavra efetiva do novo testamento. Simulam que defendem a pátria e os valores da família. Há uma cinismo avassalador, muito bem guardado na alienação dos fiéis.

Portanto, desconfio dos que se meterem no catolicismo ou se aliaram aos discursos de exploração. Fragilizaram o cristianismo de raiz. A teologia da prosperidade não possui a minha simpatia. Vejo  os rituais coordenados por vozes que fazem proposta de venda de mercadoria e prometem salvação com barganhas. Não entendo como se justificam. Esvaziaram as lutas, querem gravatas e pessoas consumistas. É interessante como houve coincidências como os momentos históricos do Brasil, o orgulho de ter crédito e fazer parte de uma sociedade mais requintada. Tudo bem. Nada contra as mudanças sociais, desde que haja repartição e não concentração de riqueza.

Cultivar Malafaia, de forma  direta ou indireta, fazer apologia do vazio de Dória, como estimulante da assepsia social e se afirmar com companheiro de Cristo me parece estranho. A modernidade alterou crenças, Weber refletiu sobre a ética protestante, muitos padres duvidaram da Igreja congelada. Neutralidade não existe. Muitos morreram, mostraram-se rebeldes. Hoje, se quer plateia e votos. Constroem tempos valiosos. Não dá para acreditar que os anjos abençoem quem se coloque ao lado dos desejos e privilégios das minorias. A ascensão social é confundida com a generosidade.

As lutas políticas estão entrelaçadas com as religiosas. Observe os Estados Unidos e suas conspirações internacionais. Não despreze as ações do terrorismo, nem a violência que se propaga pelo Oriente. A queda dos valores afeta os acordos de paz e estimula a venda de armas. Estamos cercados por golpes constantes contra a liberdade e a utopia. Eles se globalizaram. Nada como uma visita à memória para relembrar muitos desenganos.Mussolini fez pacto com os católicos, Franco não foi diferente. No Brasil, há exemplos visíveis e polêmicos. Bolsanaro é ídolo. Há os fanáticos pelas suas manifestações. O pior são os que se escondem e abraçam àas fantasias mais enganosas. Os deuses e os anjos tremem diante dos seguidores oportunistas.

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2 Comments »

 
  • Flávio disse:

    Belíssimo texto. Bem subjetivo, pessoal, revelador. Temos posições bastantes diferentes. Embora tenhamos alguns pontos de encontro. Cristo foi realmente revolucionário, escrevi um texto sobre isso. Mas, não nos moldes comunistas, ou um Cristo distorcido. Enquanto suspeita de quem finge crer, eu suspeito de quem finge não crer em algum deus. O passado é manipulável de acordo com certos interesses, assim como o próprio presente. “Cristo defendeu a igualdade e foi contra a ordem dominante”, pura verdade, mas em nenhum momento incentivou os zelotes a matarem, depredarem prédios, queimar o sinédrio por exemplo. Alguns podem até simular que defendem a família, mas é mais válido fingir de que se defende algo bom, do que declarar abertamente que se defende o fim da pátria e dos valores da família. O cinismo se revela ao fechar os olhos para o que o socialismo tem feito na Venezuela, por exemplo, e sobre isso, os alienados de vermelho nada sabem comentar enquanto escondem os rostos nos seus atos violentos. De que adianta dizer que se defende tanto a democracia no Brasil quando apóia um ditador massacrar o seu próprio povo na Venezuela.
    O evangelho da prosperidade é um mal presente em muitos púlpitos, mas não em todos. Cristo não condenou as riquezas, mas o amor e busca demasiada a ela. Ordenou que se buscasse primeiro o Reino dos céus.

    Mas, estranho do que fazer apologia ao Dória e ser companheiro de Cristo, é defender a prisão a corruptos enquanto enaltecem os condenados como heróis. Se não é estranho, é o cúmulo da incoerência. Afirmar que apoiar o fim da cracolândia é defender o vazio é contraditório, principalmente quando se o que mais deseja é o povo, pessoas de bem com suas famílas, crianças e comerciantes possam “encher” livremente as ruas sem se sentirem ameaçadas por viciados e traficantes armados. Não há incongruência com esta postura e o cristianismo. Weber refletiu muito bem sobre a ética protestante e mostrou como o discurso protestante fez parte e contribuiu para o desenvolvimento econômico das mais ricas nações. Desenvolvimento econômico nem sempre é sinônimo de desigualdade.

    Como o senhor mesmo disse: “Estamos cercados por golpes constantes contra a liberdade e a utopia. Eles se globalizaram. Nada como uma visita à memória para relembrar muitos desenganos.” A história é nossa professora. Precisamos ter cuidado com os deuses da esquerda inimputável de qualquer crime, embora seus filhos ostentem tantas riquezas. E também os da direita, chamando-o de mito por não ter se corrompido como a maioria. Ao menos até agora. Não sei qual é o mais perigoso, ter esperança de dias melhores com políticos honestos, ou esperar de políticos corruptos a salvação do próprio abismo que eles nos meteram? Se lá na frente o tal Bolsonaro vier a se corromper, o importante é não fechar os olhos e tratá-lo como vítima de uma conspiração da elite, ou como “guerreiro do povo brasileiro”, mas sim defender a aplicação da Lei e da justiça. Achei por bem comentar, visto que nosso último debate envolveu a maioria desses assuntos. As reflexões são válidas, importantes, o diálogo sempre é proveitoso. Aprendi mais um pouco. Tenha um excelente dia meu amigo e mestre.

  • Flávo

    Grato pelo diálogo.
    abs
    antonio

 

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