O discurso do rei, o discurso de ninguém

 

A palavra inventa e desfaz verdades antigas. Ela não possui a dureza dos dicionários. Ele é uma simulação, um ponto de referência. A palavra se envolve com o tempo e o lugar. As linguagens mudam, desmontam siginificados e pedem renovação. Por isso, não entendemos certos mandamentos seculares e apelamos para as hermenêuticas. Interpretar os gestos, também nos salva. Os alfabetos ajudam na troca dos afeto, mas agitam negócios e conspirações. Portanto, o silêncio tem suas extensões e importância, mas as conversações transformam e dão formas às histórias.

Palavra e poder dançam com intimidade. Não é à toa que existem os livros sagrados, nem tampouco os segredos da magia. Nem todos têm acesso aos códigos de grupos poderosos.Ninguém conseguir dominar, com segurança, os sinais de cada cultura e suas costuras vocabulares. Isso não é registro do mundo contemporâneo. Mergulhe nas tragédias gregas, nos dizeres dos deuses e dos profetas do Oriente Médio. Nos exercícios militares, os comandos preparam discursos com estratégias que buscam vitórias e consagrações.

O discurso do rei articula-se com relações de poder. Não pode tergiversar. Sua fluência é corda esticada e forte. Um rei, sem palavras, desencanta seus súditos, desmorona a força de impérios e de tradições. O cuidado é frequente, no mover dos desejos e sua ligação com as palavras. O rei fica agoniado, quando lhe fogem ordens e gagueja, impotente e aflito. Ele sabe que os símbolos também governam. Surgem anseios, demandas de explicações, as tecnologias se movimentam.O mundo não esgota seu universo discursivo. A palavra é o cais, mesmo que repita mitos e desconsolos.

O filme, O discurso do rei, na sua simplicidade, descortina reflexões. Traz sabedorias no seu humor. Por detrás dos acontecimentos mais solenes, há contrariedades e lutas escondidas. A guerra chama a atenção. Sua violência desengana os humanistas e fortalece o desamparo. Não se pode obscurecer seus abismos, suas raivas, as fronteiras que os exércitos rasgam. Mas o rei tinha dificuldades básicas. Estava preso nas suas viagens de infância e neuroses cruéis. Havia um susto que descordenava as decisões políticas. O discurso do rei era o discurso de ninguém.

As sociedades vivem suas hierarquias. As palavras não se ausentam delas. Há modos de cumprimentos, expectativas constantes. Uma coisa é uma entrevista, depois de uma partida de futebol de times da segunda divisão, outras coisa é pronunciamento de um diretor de uma escola de samba que perdeu no desfile, decepcionando os fãs. A palavra fere, distrai, amargura, festeja. Por isso que o discurso tem cores e tons. Quando se apresenta dissonante ameaça confundir esperanças e desfia o manto que cobria o sossego.

Hitler entusiasmava as massas, com suas promessas. Promoveu o ódio e provocou genocídios. Amendrontou o mundo e banalizou o mal. As propagandas, hoje, se prevalecem do controle. Suas artimanhas são sutis. Retomam valores, desenham vazios,  cedem aos acordes da manipulação. Quando a crítica é desprezada e a verdade parece um cristal insuperável, alguma contradição está sendo enterrada, para que os olhos não adivinhem as figuras dos desastres. Mas o rei distraiu a mudez e enfeitiçou o poder. Sorriu.

P. S: Por sugestão de uma leitora, estamos incorporando também uma relação de filmes que dialogam com a temática do blog.

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2 Comments »

 
  • Monique disse:

    É,de fato, questionador e fascinante o poder do discurso.A partir do que se é dito se monta e se desfaz…encobre-se verdades, criam-se verdades….domina-se…convence!

  • Monique

    As palavras possuem magias. Por isso, podem muito, mesmo no mundo dominado pelas imagens.
    abs
    antonio paulo

 

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