O divã de Freud não é pequeno

 

Freud é um pensador que me atrai. Não sou psicanalista, mas admiro suas reflexões e forma com viu o avesso da coisas. Leio, atualmente, um biografia dele, escrita por Elizabeth Roudinesco. Muito bem elaborada, atraente, desperta especulações e prima pela erudição. Debato texto de Freud nas minhas aulas, apesar de haver historiadores que desprezem o mestre que tanto enalteço. Aprendi muito com seus livros e seus intérpretes. Há preconceitos que, também, invadem às academias e invejas que circulam agressivamente. A disputa intelectual é parte das lutas dos que se embriagam com o saber. O passado não está fora do que vivemos agora. Devemos compreendê-lo.

Freud desnudou o homem e seus desejo. Trouxe polêmicas e ambiguidade. Assustou a sociedade. Não hesitou. Falou da sexualidade, mostrou a densidade das escolhas e poder dos sonhos. Era senhor de muitos  caminhos. Não se intimidava com as questões de seus críticos. Ampliava vaidades, rompeu com amigos, conviveu com cientistas famosos. Sustentou desafios. Usou cocaína durante uns anos, fumava charutos, dialogava com as novidades que abalavam as universidades da época. Criou uma obra que não se foi. Sua hermenêutica é  um cristal precioso. Decifra, se engana, produz dúvidas e inquietações. Enfrenta as limitações e as máscaras do humano.

Não foi uniforme. Senti o golpe da primeira Guerra Mundial. Abraçou o pessimismo, desconfiou de certas generosidades e proclamou o lugar da violência e da pulsão de morte. Na literatura, encontrou-se com o mitos gregos, cultivou as tragédias, apaixonou-se por Shakespeare. Lá estão Édipo, Hamlet e as inúmeras fantasia que moram no humano. Observava o cotidiano como poucos , anotava detalhes, desenhava neuroses, assumia modelos, queria ser respeitado. Conseguiu êxito. Visitou os Estados Unidos com grande alarde. Tornou-se uma figura ímpar, embora não gozasse de unanimidade. Morreu deixando vasta influência.

Roudinesco escreve com elegância. Não esquece as curiosidade, visita fontes devastadoras, não foge de se colocar nas polêmicas. Trata-se de um livro singular. Lembrou-me de uma outra biografia de Freud, escrita por Peter Gay. Roudinesco já tem uma vasta obra, inclusive com livros traduzidos no Brasil. Num mundo complexo, navegar pelos oceanos da psicanálise é indispensável. Não termos todas as respostas, mas agitaremos apatias. Como o divã de Freud caberia os clientes contemporâneos? Já imaginou Cunha, Malafaia, Renan, Temer, Moro, Dilma numa sessão de terapia? E aquelas personagens cínicas que andam ocupando a imprensa com notícias tenebrosas?

As relações que tocam o sentimento provocam dissidências. Há quem se esconda, se transfira para negócio obscuros. As drogas prometem curam dissabores e estimular valentias. Será? O jogo dos remédios é comum. As farmácias habitam nas esquinas e as pessoas se apressam. Resistem à reflexão, buscam curas milagrosas. Falta paciência ou vontade de não conviver com a dor? A incompletude esvazia a coragem de muitos. O mito da eternidade possui seu público. Há religiões que tornam a fé um bem especial. A grana corre. Como Freud se sentiria na plenitude de narcisismo monstruoso? Mudaria sua teorias? Congelaria suas ideias?

 

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