O domingo, a gangorra, o desperdício, a nostalgia

 

O movimento comercial do domingo atrapalha seu charme.O descanso é quase um mito na sociedades das grandes empresas. Os divertimentos mudaram de lugar. Quem pode comprar, faz opções claras. Não vacila e se dirige às lojas especializadas. Gasta o suor do seu trabalho ou a frescura das suas refrigerações. Aumenta dívidas. Despreza as praias e as piscinas. Aquele restaurante familiar termina caindo fora da programação. Melhor é comer rápido, para assistir ao, mais recente, sucesso cinematográfico. Pode acontecer, também, a troca de uma carro, numa euforia comunicada aos amigos. Uma vitória na escala social que traz inveja.Cada um que estique seu cartão de crédito.

Quem pode, pode, quem não pode, se sacode. Uma boa reflexão sobre as contagiantes e nutridas relações de poder. Não é necessário muita teoria, nem leituras exaustivas de Foucault, para observar as disparidades financeiras e os limites que perseguem os  desfavorecidos. Mas tudo se resolve ou se disfarça. Muitos divertem-se dando longos passeios entre as gôndolas dos supermercados. Contemplam-se perfumes, leites de soja, chocolates da Nestlé, bermudas … Uma multidão de pessoas e de produtos, num desfile barulhento e repleto de frustrações, com promessas para os filhos de que, um dia, o carrinho ganhará uma forma avantajada.

Aquele futebol do domingo, ainda, atrai, mas não como antes. Há canais esportivos e bares recebendo clientes para torcer pelos clubes. Há disputas milionárias entre as emissoras de TVs. Querem o monopólios das transmissões. A briga é enorme e tumultua até a liberdade crítica  dos profissionais. O Corinthians e o Flamengo buscam manter seus prestígios e pagar suas dívidas. As dissonâncias dividem os grupos e chamam atenção da CBF. Ela não é neutra. Não se ausenta da festa. Fala-se de mais uma CPI, para esclarecer os interesses. Por anda tanta grana e contratos fabulosos? É difícil olhar e descobrir ações transparentes. Vale o discurso do melhor negócio.

O domingo ensolarado é um encanto. O céu o azul, o calor solto, a vontade de permanecer na cama. A preguiça é uma instituição antiga. Quando os empregos aparecem e se firmam, o trabalho é exaltado, não importa a falta de tempo para refletir. O circuito do dinheiro é a energia do sistema capitalista. Não , apenas, o comércio se expande e delicia-se com seus frequentadores.Tudo se inventa. Casas de festas, encontros religiosos, vestibulares simulados, concursos. Deus  ficou sem seu momento de descanso. Vê o desperdício rolando e sente  falta daquela rede dos tempos de Adão e Eva.

O mundo é outro. As maçãs estão cheios de agrotóxicos e as serpentes dormem nos laboratórios.Lembro-me das gangorras dos parques e das praças. Simplicidade, cores variadas, crianças sorrindo. Um vaivém muito representativo das sociabilidades que demonstrava o quanto é significativo brincar com os outros e compreender que a vida se faz no encontro. Quem deixa o outro solitário, na gangorra, causa desequilíbrios. O individualismo dos jogos virtuais pouco se ligam com o toque do afeto. O diálogo se desenha estranho, nas telas dos computadores. Desencarnado. Cadê a magia da paciência, o som da respiração, o fluir das nostalgias?

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8 Comments »

 
  • valerio disse:

    A epifania acontece nos centros de consumo, o deus “mercado” se manifesta às expensas da potência do cartão de crédito: “tenho, logo sou”.

    Nada de novo no front. Nos sobra entretanto a escolha, ou pelo menos a possibilidade dela, que, com todas as consequencias, é o princípio da democracia e atrela consigo a responsabilidade…

    Que coisa mais desagradável lembrar disso!

    Afinal se sou, eu existo, logo pertenço.

  • Flávia Campos disse:

    Antonio, profundo, simples e bonito o seu texto.
    Parece que foi tecido na nostalgia, especialmente para um dia de “domingo ensolarado”, com o “céu o azul” e “o calor solto”.
    Gangorras, parques e praças nos lembram que o lúdico, o riso, o encontro, são vitais para a permanência da vida humana.
    “Quem deixa o outro solitário, na gangorra, causa desequilíbrios.”
    Linda esta metáfora!
    Que os domingos e os outros dias da semana possam substituir o desperdício pelo “afeto, pelo diálogo pela magia da paciência, pelo som da respiração, pelo fluir das nostalgias”, pelo encontro com o outro!!!”
    Grata, Antonio.
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    O domingo tem seus encantos. Não devemos perdê-los. Grato pela leitura afetiva.
    bjs
    antonio paulo

  • Valério

    No mundo dos negócios, fica um pouco bloqueada aquela vontade de ser mais solto. O consumo tem sua força, mas quem resiste ainda pode cair numa boa preguiça. As ambiguidades são frequentes e lá vamos nós buscando a vida.
    abraço
    antonio paulo

  • Geovanni Cabral disse:

    Meu nobre amigo, suas reflexões me trazem lembranças de bons domingos. Não que eu não faça o meu ser importante. Acontece que hoje, os encontros se liquefazem em eventos e ações fruto dessa efemeridade. Lembro quando os amigos sentavam na sala de casa para poder assitir uma película, sorrir, trocar ideias, comer pipocas. Hoje, é um tal de não posso, vou ao shopping, vou aproveitar para fazer compras, vou para o bar da “Boa’ assitir ao campeonato pernambucano. E assim, aquela sociabilidade se resume ao orkut, ao celular e as mensagens virtuais. É o “equilibrio distante”, na letra de Renato Russo. Os encontros nas praças é trocado pelas lojas, pelos cartões, pelas compras desenfreadas. Olho em volta da cidade de Camaragibe e percebo um movimento assutador em pleno domingo. São supermercados lotados, ruas repletas, lojas fazendo suas propagandas e anunciando ofertas para sugar o que ainda restam dos cartões de créditos. As vezes nem acredito, que em tão pouco tempo tudo mudou. O capitalismo, o consumo não escolhe nem dia, nem lugar. Ocupa espaços, centros e igrejas. E cada vez mais a gangorra se faz solitária. Diante deste cenário a ideia de familia se desfaz, porque a unicidade de almoçar todos juntos se perdem nas estradas dos desencontros. Eu gosto dos encontros no domingo, esquecer das coisas sérias, brincar com a familia, sentir o afeto, olhar para o tempo sem presa, deitar no chão da casa e sentir preguiça. Viver para contar, como diz Gabriel Marques.

  • Geovanni

    Os tempos se encontram, o importante é não perdemos os diálogos e as experiências.
    abs
    antonio paulo

  • Pandora disse:

    Excelente reflexão, convida a auto-critica, realmente não precisa ler Fourcault para perceber o que está diante de nossos olhos, só precisa para, desistir um pouco desse frenezi desesperado e pensar na vida!

  • Pandora

    Grato pela leitura.
    abs
    antonio paulo

 

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