A.Silva: o espetáculo, as frustrações, os julgamentos

Fiquei assustado com a minhas leituras do facebook na manhã do domingo. Havia polêmicas acirradas sobre a luta de Anderson Silva. Não aprecio tal esporte e nem tampouco me contagio pelos seus apelos. Gosto mesmo do futebol que, também, possui contradições. Não havia acompanhado a movimentação na imprensa, as especulações, os elogios, o fanatismo. Ninguém é inocente. A sociedade convive com diversões, não pode só festejar aniversários. Há espetáculos grandiosos, cercados de mistérios, planejados com astúcia e muita especialização. O famoso “pão e circo” não foge da história. Os sofrimentos se vestem de mecanismos de compensação. Cada cultura promove produtos, sobretudo aquela que exalta o consumo e a competição. Enfim, movi-me diante dos fatos, saindo da indiferença, costurei umas reflexões.

A derrota de Silva alterou o humor de muita gente. O herói caiu de forma absurda, segundo uma maioria expressiva. O campeão mostrou-se displicente, convencido, não respeitou o rival. Tudo foi muito rápido. A perplexidade tomou lugar das esperadas celebrações. Cervejas adiadas, alegrias contidas, lazeres intimidados. Quem curtiu o maior prejuízo? Existiram negociações subterrâneas?  Ou há um ciclo de lutas que se encerra? Quem manipula as idas e vindas dos milhões? Não faltam perguntas e respostas curtas. Uma raiva que assombra e lembra que fabricamos ficções que, muitas vezes, não entendemos.

Dizer a razão da derrota do lutador, antes, imbatível não é minha praia. Pouco compreendo dos golpes, das inabilidades, das artes marciais. Observo que a sociedade do espetáculo não se cansa de manipular a grana e modificar seus alvos. É preciso agitação, cores, desconfianças, teorias, meios de comunicação acelerados. O assunto entra nas conversas, insinua comemorações, promete um final de semana de emoções. Abrem-se os anúncios de aventuras transferidas para as imagens de telas fascinantes. Ontem, era a Copa das Confederações, os movimentos nas ruas, as controvérsias políticas…

Não há uma sequência linear, a simultaneidade confunde. Qual a importância de tantas notícias, de tantos julgamentos, de tantos juízos de valor? Não sei por onde caminhar. Penso que a sociedade atual não sobrevive sem essas fantasias. As verdades aparecem, lutam contra as mentiras. A história do paraíso tem seu retorno garantido. O maniqueísmo não abandona seu trono. Com quem está o bem? Quem argumenta com sinceridade? Por que essa explosão imediata? O circo muda seus atores. Não estamos na época das lonas, mas de sofisticadas tecnologias. Elas se entrelaçam com o poder de forma estudada. Anderson sucumbiu no meio de ambiguidades que angustiam críticos. Desmanchou sonhos. Mudou certezas. Transformou imagens.

Bastaram minutos para se diluirem memórias. Os boatos circulam, honras são questionadas. Motivo para  descontroles visitarem corações e mentes. Nem todos se ligam nas manipulações da sociedade do espetáculo, nem cogitam que o Anderson estivesse estressado de tantas soberanias. Ele é humano, vacila, adormece, sente solidão e egocentrismos. É insuficiente desenhar cenários de condenação e de acertos definidos anteriormente. A vida do ex-campeão segue. Surgirão outros, a sociedade buscará refazer o perfil dos seus ídolos, conduzida por exemplos e profecias. Quem desconfia que ela suporta a ausência de mitos?

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7 Comments »

 
  • Raphael Xavier disse:

    Extremamente lúcida a análise. A sociedade do espetáculo constrói e reconstrói seus ídolos, a figura de Anderson Silva não se ausentará desse processo…Pois quando o mito desnuda o seu manto imortal, talvez invencível, e assume sua frágil e real condição humana, demasiadamente humana, alguns tende a achar improvável, outros sentem o gosto amargo da desilusão, como se algo fora perdido…Mas na mesma velocidade que as ilusões parecem perdidas novas ilusões são produzidas e novos ídolos conhecem a sua alvorada. Para num segundo qualquer, o processo se refaça e o crepúsculo dos ídolos se faça presente…

  • Raphael

    A velocidade das mudanças traz muitas dúvidas e inseguranças. Anderson parecia um imbatível e fez muita gente viajar nessa ilusão. Isso acontece na sociedade de forma quase contínua. Com certeza, há mitos que estão soltos por aí. A cultura não se livra deles. O recomeço retoma os delírios e as fantasias.
    um abraço
    antonio

  • DIÓGENES disse:

    Refleti sobre a passagem “…nem cogitam que o Anderson estivesse estressado de tantas soberanias.” Logo depois ele foi entrevistado e disse que agora vou curti a família, possa ser que o Anderson esteja para se aposentar” É concebível realmente esse estresse, o prestígio de ser campeão pesa, ele era o alvo de tudo, o UFC trazia direto especulações de quem derrubaria o mito do esporte. A propósito as coisas não param por ai, o clima de revanchismo esta no ar e a história irá continuar, ou será uma novela? É esperar pra ver os próximos capítulos…

  • Diógenes

    É difícil medir as emoções num mundo tão cheio de armadilhas. Tudo pode acontecer. Há manipulações constantes e gente que curte as ilusões do jogo.Portanto, não dá para fazer profecia. A força da grana embriaga e desmotiva. Ela é traiçoeira.
    abs
    antonio

  • Elânia Nunes disse:

    Grandes derrotas e grandes vitórias fazem parte da sociedade do espetáculo. Como supracitado no texto” É preciso agitação, cores, desconfianças, teorias, meios de comunicação acelerados”. Vivemos em um tempo que exige uma complexidade das coisas e das ações para que o espetáculo atinja os seus objetivos: alienação, frustração, capital, passatempo, risos e zombarias.

    Adoro os seus textos, professor Paulo Rezende.

  • Elânia Nunes disse:

    Desculpe a distração, Antonio Rezende…

  • Elânia

    O que se passa na história nos toca e nos surpreende.Grato, pela leitura.
    abs.
    antonio paulo

 

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