O facebook: as travessias virtuais e apressadas

Os louvores à tecnologia encontram-se divulgados no mundo inteiro. Há especialistas em elaborar artigos, vídeos, documentários e analisar o impacto das inúmeras invenções na vida humana. Elas invadem a convivência, praticamente criam súditos e dependentes. Os meios de comunicação abrem espaços para redefinir o cotidiano. As cartas pertencem ao passado, os celulares colocam o telefone fixo em desuso, os e-mails chegam numa velocidade incomum. A população incorpora-se aos novos hábitos e não se acanha de curtir o modismo. Tudo acontece de forma quase surpreendente. Os objetos tornam-se companhias íntimas, com distinções que nem todos recebem. O ritmo da ansiedade acelera-se, movido pela pressa em resolver os impasses e conseguir firma-se nos modismos.

É claro que a repercussão na saúde pública é imensa. A venda de ansiolíticos dispara e cada esquina abriga farmácias, sempre, bem frequentadas. As doenças sociais formam novos mercados e vastos campos de acumulação de riqueza. É preciso conter os impulsos, dizem o mais quietos. Muitas mudanças também perturbam projetos e desfazem expectativas. Portanto, o tique-taque dos relógios antigos está superado, diante das maravilhas digitais. O lixo tecnológico cresce, causa preocupação e tensões nas disputas por sossego na gestão da ecologia. Como colecionar tanta coisa? O que é mesmo utilidade numa sociedade alimentada por supérfluos e descartáveis? O que é mesmo o necessário?

O facebook é um dos lugares privilegiado do mundo que se recompõe. Sua frequência é deslumbrante. Atinge milhões de pessoas, quebra fronteiras, estimula amizades cm desconhecidos, compartilha risos e desesperos. A grande questão é a inquietude, a maneira com cada geração se nutre das suas travessias. A tela do computador tem um olhar penetrante, não gosta de imobilidades. Estica-se com elegância. Não falo das telas mais convencionais. Há modelos variados, de tamanhos mínimos que trazem charmes aos seus proprietários. A tela é um espelho, núcleo poderoso das curtições. O mito de Narciso ressurge conectado noutro inconsciente, com desejo de reformular seus toques de solidão.

Quem afirma que a tecnologia liberta não está centrado nas metamorfoses agudas do contemporâneo. Longe do dualismo, da velha querela entre os seguidores e os seguidores do mal, o facebook se veste de multiplicidade que desafia qualquer observador. As telas contam histórias fragmentadas, não deixam de manipular ilusões na fuga do instantâneo das fotos coloridas. Dialogamos com fantasmas ou indivíduos? O que é mesmo virtualidade? Há mapas quando não existem territórios? Quem pergunta e quem responde nas conversas sem rostos vivos?

A secularização da cultura foi anunciada por muitos teóricos. Era base da modernidade, assinalava a vitória do racionalismo e indicava novos rumos para a política. A desmontagem de alguns preconceitos e o progresso não trouxeram transparências prometidas. As hierarquias permanecem, a concentração de riqueza continua animando o capitalismo. Procuram-se ídolos e divindades com outras promessas e orações. A mistura de ações confunde caminhos. A ciência não foge das articulações de um mercado globalizado e conflituoso. Vivemos numa época em que há divergências sobre seu próprio nome, para delírio de intelectuais e sectarismos disfarçados. Haja fôlego.

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2 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    E haja fôlego mesmo Antonio Paulo, a chegada do facebook e sua dominação no mundo hoje se tornou algo assustador, são poucos que querem passar algo de reflexivo nas redes sociais, o se mostrar esta imperando, a solidão aparece ai, pessoas se sentem confortadas mais com um “curtir” do que um bom conselho que conforte e dê esperanças para levar a vida.

    Abraços

  • Diógenes

    Tudo de novo exige uma mexida nos comportamentos. Aprendemos muito. Há de tudo. Temos que ver o espaço que queremos e curtir o que nos toca.
    abs
    antonio

 

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