O Facebook e seus cotidianos curvos

Não se esconda das mentiras que conta. Há sempre alguém desconfiado que observa os cinismos com agilidade. Temos que fugir de certas verdades quando as dores apertam e empurram para o abismo. A vida não é lugar de sossegos permanentes. As eternidades são propriedades dos deuses, se é que eles que existem. Mas essa uma discussão escorregadia. Por que perturbar quem está quieto esperando a boa vontade dos santos? A conversa deve circular, lançar dúvidas. Tudo sem estimular agressividades. A felicidade é uma fantasia. Não saber  que necessitamos de ilusões para voar em tapetes mágicos é um descuido fatal.. O real toca no imaginário e o delírio nem sempre é um sinal de loucura.

Não se tratam de pensamentos freudianos. Apenas, palavras soltas para animar a escrita. Pouco sei dos mistérios, contudo navego pelo acaso. As surpresas estão presentes em todas as praças, esquinas, becos, prédios…. A sociedade não se cansa de inventar. O mundo  se alimenta de novidades. Não há uma linha reta definida. As hipocrisias são registradas em manchetes, no entanto há quem goste de vê-las e praticá-las. Não há ausência de regras. Restam indagações, curvas inesperadas, desenhos mal traçados. Vivemos com teimosia e. às vezes, com amarguras massacrantes. A história é vasta, produz desencontros, castiga, promete, desengana.

Quando estamos no Facebook os espelhos ganham molduras com geometrias desconhecidas. Curtimos muitos textos sem ler o conteúdo e choramos lágrimas ao sentir que as injustiças sociais aumentam. Nem tudo é sentimento marcado pela solidariedade. Há cálculos, arrogâncias, exibicionismo, grupos fechados nas suas vaidades. Existe algo de estranho no que observamos? Por que tantas condenações? Há quem julgue com severidade e analise o Facebook como se estivesse lendo O Contrato Social de Rousseau. Já escutei muitas ironias. No mínimo, falam de banalidades, frustrações, perda de tempo. Ele é um registro do nosso tempo  ansioso.

A memória se balança. Cada um exercita sua convivência com a solidão com as forças que possui. No entanto, a competição traz mágoas e juízos de valor. Como negar as diferenças? Muita gente está no Facebook em busca de afeto, colocando suas fotos, comunicando encontros, perdas, valentias. Outros consagram sabedorias acadêmicas, mostram-se irritados, aproveitam para contatos com serpentes e dragões. Quando surgiram a televisão, o telefone, a luz elétrica não houve perplexidade? E a leitura dos livros de Kafka, Mia Couto, Graciliano, Guimarães não sacodem o coração? Quem prefere Paulo Coelho e as aventuras de Batman?

A multiplicidade é inesgotável e navegar é preciso. O Facebook e as badaladas redes sociais no seu conjunto não anunciam o apocalipse. Somos vítimas do pecado original ou tudo não passa de lendas preciosas? Conhecer é tocar na sensibilidade, olhar o outro e não desperdiçar a imaginação. O pior é a a construção de hierarquias com títulos e méritos celebrados pelo poder. As invenções humanas não fogem das ambivalências. O espaço da crítica não deixará a história quando o Facebook desaparecer. O desamparo cerca o quarto escuro. Quem se envolve com  as sociabilidades tecnológicas também penetra na história, quer reviravoltas. O homogêneo está em coma.

 

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