O fascismo e a violência, a democracia e o afeto

Os acirramentos das disputas políticas são perigosos. Quando se joga fora o diálogo, cria-se suspense. Há uma série de julgamentos que se estende pelo cotidiano. A confusão provoca inimizades e histerias. As batalhas se dão nos mais íntimos recantos. O facebook é um território minado. Muita gente se esconde e troca a solidão pela  agressividade. Até riem, talvez por se sentirem uma ameaça, poderosos. Somos diferentes e na sociedade há uma diversidade de concepções. A maldade também tem uma moradia. Os abismos existem na subjetividade, desenham ruídos, tumultuam. Não há uma única forma de construir a história. Cada época dança seu ritmo, queima seu fogo, fere suas referências, omite verdades.

Na radicalização das crise políticas aparecem espetáculos inesperados. O fascismo gosta de usufruir desse ambiente. Quem conhece história não deve esquecer-se das violências de Stálin, Hitler, Mussolini, Salazar. São alguns exemplos que tiveram ressonância internacional. Defensores do militarismo, eliminavam seus adversários com violência. Não dispensavam uma política secreta ativa  que se espalhava por outros países. No entanto, não custa lembrar seus discursos. Não faltavam propagandas, celebrações, salvacionismos. Entravam em guerras, tinham manias imperialistas. Não estavam sós, conseguiram convencer multidões. Há um cinismo que circula, como também um estranho culto a rituais de desqualificação do outro.

Quando se vê outro como inimigo, quando não se suportam diferenças, as relações se fragmentam. Há depressões, perdas de si, pânicos. No Brasil, atualmente, a atmosfera política se complica. Há uma vitrine de raivas que aumenta surpreendentemente. Muitas máscaras caem, misturam-se crenças com vinganças. O medo assombra, pois a instabilidade é constante. Não é uma novidade histórica. As lutas violentas fazem parte da convivência, fascinam quem é fanático pelo poder. Os meios de comunicação investem nos boatos, buscam vender notícias, são peritos nas tragédias encenadas com imagens.

A gravidade da situação se envolve com desconfianças. Vivemos numa democracia? Ela exige que sejamos solidários, destaquemos a coletividade? Será que fazer oposição ao governo  não é democrata? Surgem imensas dúvidas. As leis sofrem, as mentiras voam, as infâmias se fabricam. Fazer oposição, se indignar com corrupções e se mover não significam adesão ao fascismo. A democracia significa autonomia e não opressão fingida. Não adianta gritar palavras sem saber o que elas significam. Consultar a memória nos traz lucidez. Observar como as diferenças podem se articular, ameniza injustiças ou egoísmos extremos é desafio. A história possui muitos tempos, porém o sonho não é brincadeira. Ele se agita, configura coragens.

Se a ordem instituída é atacada,  a inquietude se fixa. As reações não são apenas racionais. O fascismo promove preconceitos. Não quer ligações com afetos. Lembrem-se dos campos de concentração nazistas. Quebra-se a possibilidade de viver as diferenças. As perseguições calam resistências. Portanto, as figuras políticas exploram tradições venenosas. A sociedade, vitimada pela crise radical , desanda. O império dos fantasmas cresce com pesadelos e tensões. É importante não simplificar a democracia e olhar com atenção a multiplicidade. Não basta acusar, desfazer a lei. No desengano, na armadilha, todos se amedrontam. A arrogância se assemelha à violência, nos sentimos mesquinhos num paraíso de demônios.

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