O feitiço desmancha a política?

Certos jantares trazem a fantasia e o desejo de poder. Alimentam o pragmatismo perverso. Num país que vive tantos desafetos, ainda se tem o cinismo de celebrar conspirações. Sinto, às vezes, dificuldade de respirar. Não sei se há bruxarias soltas, inquisições preparadas, congelamento de coragens. Não tenho dúvidas que o abismo é grande. Não registro dogmas, mas vejo máscaras como armaduras feudais. O sonho que voar, sumir, busca possibilidades. Os pesadelos assustam cotidianamente. Caminho esperando armadilhas. Querem riscar o futuro com planos nefastos.

O pântano invade palácios e a vida segue apostando, tonta, desacreditando na política. O peso da grana é feitiço de quem já tem muita grana. As violências simbólicas se confundem com as violências físicas e os circos de lonas decretaram o término da ingenuidade.A história é movimento. Não existe, porém, a trilha da aventura que leva ao paraíso. Nossos guias estão moribundos, desconhecem a solidariedade, esnobam. Temer assusta, contudo fala da delicadeza, coloca Marcela na vitrine. Não consigo ver sua fortaleza.

Quem sabe se não há uma nova reviravolta? Tudo é sombrio. Juntaram-se o fundamentalismo religioso, a mídia astuciosa, o clientelismo político. os poderosos de plantão e oportunistas sutis.Ídolos do passado assombram com suas ambiguidades. Existe uma epidemia de esquecimento? Velhos rostos prometem renascer para um outro mundo e desfiar a ética como profundidade. Decepções se avolumam. A diversidade é necessária desde que haja franqueza e o mínimo de cordialidade.

Há a sensação de que o outro é sempre um farsante. Joga-se fora a criatividade, quando se rasga o direito e se justifica a opressão. O facebook está cheio de salvadores, de gente que foge da conversa, solta a agressividade e inventa uma vitamina do legal com o legítimo. Uma intranquilidade rompe com os afetos. A velha história deara levar vantagem continua firme. Ninguém pensa nos espaços públicos. O foco é privatizar, marginalizar, garantir consultoria milagrosas, anúncios sedutores, apresentar sorrisos e deitar na cama de uma neutralidade inexistente.

Tudo feito com rapidez e ameaças. Não dá para ficar em cima do muro. Ele está com cacos de vidros venenosos e os ritmam como sambas nas madrugadas. Que fazer? Pedir para tocar um sinfonia de Mahler e um tango de Piazzolla?O que tudo isso significa? Que Cunha e Bolsonaro apreciam o purgatório junto com sua turma bem nutrida? Quem adivinha? Multiplicam-se leituras. Pode ser o fim dos tempos? Mas será que o tempo tem fim? Precisamos de novos deuses que cultivem a humildade? Os ídolos não estão no inferno astral? As eleições expressam rebeldias ou confirmam ideias conservadoras, negócios abertos de forma escancarada.

Dizem que a corrupção está no berço. O voto teve preço? Como se explica a votação de candidatos que não sabem balbuciar? As malas andam carregando o quê? Permanece a minoria ludibriando com sofisticações inesperadas. Lembrando Marcuse: desejar uma sociedade unidimensional é um pecado sem fronteiras. O ontem, o hoje, amanhã são fatias de uma construção que tem avessos e labirintos. Somos do mundo, giramos como discos rígidos tensionados. Necessitamos de transformadores, de uma oração descongelada.

 

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