O feitiço turbulento da grana

Na sociedade do espetáculo, as crises acontecem e provocam expectativas. Há um medo de perder  privilégios que corre solto. Mesmo quem sofre de carências básicas se assusta com as notícias. Não faltam previsões negativas, mas nem tudo virou um inferno. Há quem lucre. Nem todos perdem. A sociedade vive das desigualdades e os valores tremem com os desacertos dos governos. O jogo é pesado, não adianta negar que as mentiras ganham corpo e fica difícil julgar. A grana é o assunto. Como ganhá-la, como escondê-la? O espaço da desconfiança se expande, garantindo suspeitas estranhas e descontroles cotidianos com ruídos inibidores.

A existência de desigualdades arma violências e comportamentos que frustram aproximações. Cria-se uma atmosfera de tensão. Se as referências se fragilizam, as pedagogias ficam confusas. O que se pode exigir, limitar, projetar? O que se divulga é o que atrai investimentos. O conflito não é invenção, nem se encontra apenas nas guerras. O cultivo do individualismo é comum. Não há como buscar ponto de apoio , se a concorrência domina, se as emboscadas são organizadas com técnicas sofisticadas. A sociedade vive uma fragmentação radical sob o comando de uma mídia sem medidas.

Não há utopias que consigam resistir. A solidariedade assume o rosto da filantropia cheia de armadilhas. Mede-se tudo com estatísticas efêmeras. O número parece senhor da verdade, pois as identidades se desfazem em segundos. Para cada momento um riso, uma nudez, um descuido. As explicações não se vão. O reino dos especialistas formaliza argumentos. Apesar dos desencontros, não se pode dispensar a fabricação de verdades. O forte é saber comunicá-las, convencer. Fernando Pessoa dizia que os deuses vendem quando dão. Qual é mesmo o tamanho da generosidade anunciada com festividades?

Arquitetar mercados, ornamentar vitrines, produzir ficções, imaginar universos de exílio. O mundo traz sortes e azares que correspondem  aos desejos de infinitos. Não há história sem invenções, mesmo que se profetize apocalipses. Se a grana atrai, seduz, motiva, é preciso articulá-la aos esquemas de poder. Eles possuem tentáculos. não estão somente nas administrações públicas. Na sociedade do espetáculo, os divertimentos não são gratuitos. As sombras prevalecem, os enganos têm brilhos. Quem firma as imagens torna-se senhor e sufoca os possíveis inimigos. A cultura das aparências consolida-se com cerimônias frequentes. Os egocentrismos alimentam erros e simbolizam reflexões amargas.

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