O fetiche da mercadoria e a trilha das invenções

As mudanças trazidas pela modernidade nem sempre se vestiram com o otimismo que animou os amantes das utopias. A revolução industrial criou outras atmosferas para convivência social. Jornadas de trabalhos intensas anunciavam que a fome dos capitalismo é veloz. Estamos, agora, no século XXI. Sabemos que modernidade não foi uma revolução repentina. Ele se deu com o entrelaçamento de muitas histórias. Derrubou tradições, no entanto continuou o velho uso das máscaras para disfarçar suas contradições. A articulação da ciência com o capital não sossega nem os mais pacientes. Deixou Freud perplexo com o mal-estar na cultura, amargurado com os rumos cínicos da chamada civilização ocidental.

É importante não afirmar que a modernidade é projeto homogêneo. Ela também fermenta críticas e dúvidas. É uma escolha. Não expande neutralidade. Os interesses se digladiam e o mundo se transforma num grande mercado globalizado. Portanto, cair no niilismo pode ser um naufrágio, uma recusa, uma cegueira. Muitos pensadores, do século XIX , mostraram que a modernidade era múltipla. Se havia o liberalismo, a acumulação de riqueza, a falta de fraternidade, havia  teorias que traçavam caminhos para o socialismo e combatia um desencantamento que tomava conta da cultura. A dissonância rege a sinfonia da modernidade. As obras de Marx elucidam muitas manobras do capitalismo. Não é, só, uma apologia do movimento revolucinário. É uma reflexão sobre os significados do trabalho, sobre os desconfortos cruéis da exploração, sobre os fetiches que consagram o progresso.

O tempo, agora, é outro, porém não apostemos nas reviravoltas. Entremos nos labirintos da permanência. Já se fala em pós-modernidade, em pós-história. Não faltam formas de periodizar. A pergunta é: o que existe para além dos rótulos? Quando Marx discute a questão do fetiche da mercadoria não toca em relações que vivemos hoje? Será que a profundidade do fetiche não é maior? E a configuração do trabalho assalariado não preserva a opressão? Por onde anda a prometida sociedade do lazer ? Nos gabinetes misteriosos do FMI ou nos relatórios iluminados dos consultores das corporações? Marx escreveu respondendo às questões  do seu tempo, contudo há permanências e não, apenas, passado sepultado e carcomido. A sintonização com a simultaneidade ajuda a compreender o vaivém da história.

As tragédias de Shakespeare não têm mais eco? O que vale é o futuro na sua nudez  radical? A insensatez comanda o desfazer-se da memória e a soltura incontornável do desejo. Quando o tempo se assume como um repertório de esquecimentos os perigos se avizinham sem limites. O fetiche da mercadoria ganha espaços cotidianos na euforia das renovações tecnológicas. A sociedade produz ilusões. Abastece-se delas para assegurar poderes. É um jogo antigo. Olhar o passado, acender seu diálogo com o que está sendo vivido, alerta. Não é exagero observar o avesso: as invenções sendo desconhecidas por aqueles que as planejaram. É o sinal do caos. A instituição da sociedade também visa recobrir esse caos, e a criar um mundo para sociedade, e ela o cria, mas nesta criação é impossível evitar a existência de grande buracos, de grande conduto, através dos quais o caos se torna evidente ( Castoriadis).

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2 Comments »

 
  • Filipe disse:

    Seria a modernidade atual fruto das escolhas de nossos antepassados? A periodização, característica humana, seria uma ilusão buscada pelos que tentam se impor ao tempo? E, esse tempo histórico baseasse nas ideias de S. Agostinho, de um tempo circular, diferente da noção de retiliniedade?

  • Filipe

    Estamos em movimento. A apatia é uma renúncia que não ajuda a sociabilidade.
    abs
    antonio

 

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