O fluir da escrita e da conversa nos tempos do mundo

                 

A conversa é a maior invenção da cultura. Ela traça as texturas das sociabilidades, sem descansar os mistérios que vagam pelo mundo. A conversa não precisa de muito ruídos e nem de multidões para ouvi-la. No canto da cama, meio atravessado pela insônia, a conversa pode inquietar e trazer lembranças. Sozinhos falamos sobre o mundo, respondemos indagações, pensamos como tudo seria diferente, se o sono refizesse as mágoas, abandonasse os pesadelos. Não faltam palavras. Elas atiçam as conversas que saem de dentro para fora ou se escondem por detrás das batidas do coração. O ritmo varia, não se restringe a regras,  acorda que tem medo do amanhecer.

As conversas fluem como a escrita. Talvez, se confundam, mas se  envolvem com palavras, com a vontade de romper tradições ou de ir ao encontro das novidades, como o cinema norte-americana na  década de 1970. Não esqueça que circulam lendas na história. Fala-se de tempos remotos, indefiníveis, para além dos mitos. Nesses tempos, os bichos não, apenas, tinham sons não humanos, porém cultivavam linguagens. Não assuste com o que diz Mia Couto, num dos romances, quando entrelaça memórias fantásticas, precupado em deslocar estéticas e remontar ousadias: Nos dias de hje, porém, já não sabe falar a língua dos homens. Nãozinha se lamentava: quem nos mandou afastar das tradições? Agora, perdemos os laços com os celestiais mensageiros.

O escritor é um inventor de nomes, não teme feitiços. Por isso, Mia Couto não economiza aventuras. Nada de cartesianismo. Por que o planeta Terra não vivia de murmúrios diversificados, de sinfonias sem harmonias, do voo de pássaros que discursavam do lado de dentro das nuvens? Achar que tudo tem um fim e um começo determinados é aprisionar-se. O mundo confabula com o incerto, não garante a permanência de discursos do método, não perpetua as pretensões dialéticas de Hegel. Se tudo se iguala, a mediocridade rege o desejo e sepulta a ousadia.

Nãozinha termimou as falas, caindo por tera, exausta. Izidine Naíta saiu da cerimônia, foi ao quarto e escreveu durante toda a noite. Redigia como Deus: direito mas sem a pauta. Os que lhe lesses iriam ter o serviço de desentortar palavras. Na vida só a morte é exacta.O resto balança nas duas margens da dúvida (Mia Couto). A mistura das múltiplas conexões não permite  que as palavras se deitem em linhas e anunciem uma única linguagem. Quem anima a escrita não se sossega com quietude, nem estimula realidades fixa. Assim, faz Mia  no seu romance A varanda do frangipani.

Quem leu as tragédias gregas não se engana com as descontinuidades das conversas e das suas relações com o poder. Não são neutras, nem estão enraizadas. Flutuam, inseguras com as intervenções dos poetas. A sociedade contemporânea procura cercear a criação mágica. Difundir imagens, espantar inocentes, no entanto não aprofunda as ironias de Baudelaire, nem as andanças de Proust em busca do tempo perdido. Nem tudo está congelado na fria reflexão das burocracias. O gelo se quebra e as conversas navegam assombrando a soberania do descartável.

 

 

 

 

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2 Comments »

 
  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    “A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto.”
    O homem-ser sociável por essência-construiu formas múltiplas de comunicação.Comunicamo-nos até por um olhar,um toque,um gesto…Às vezes queremos dizer muito com gestos bem sutis,delicados…É perceptível a quem se atreve a descortinar os olhos!
    Gostei muito do texto!

  • Amanda

    Sem a sociabilidade não há cultura. Falta afeto para que a cultura seja mais solidária e agregue ideias generosas.
    abs
    antonio

 

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