O fluir do tempo e a cultura da imperfeição

A história não é linha reta. Gosto de repetir que a verdade é curva, lembrando-me dos conceitos de Nietzsche. As idealizações do Ilumismo não foram em vão. Mesmo que as luzes do progresso não tenham obtido o sucesso programado, houve abalos e quebra de tradições. Os focos mudaram, as controvérsias não se esvaziaram. Se o objetivo era desfazer os dogmas, o êxito não foi total. É preciso observar as substituições, com cuidado. A ciência não é neutra. Seduz, provoca, às vezes, admirações infantilizadas. Ela não conseguiu fugir das mistificações e transformou alguns dos seus seguidores em sacerdotes de uma nova crença.

Quando a crítica se enfraquece, a sociedade procura ampliar os mistérios. Desfaz-se das dúvidas. O lugar da verdade tem suas relações com o lugar do saber. O poder não sobrevive, sem se aliar a conhecimentos, mostrar  controles de técnicas, inventar discursos. Nenhum projeto de dominação se consolida, sem armar seus argumentos. Mesmo que use o autoritarismo, que ressuscite Hobbes e Maquiavel, há, sempre, possibilidade de rebeldia, nem que seja na imaginação e no sonho. O Iluminismo exaltou a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Não firmou a plenitude do seus encontros com a revolução, mas isso não invalida a força do pensamento de Montesquieu, Locke, Kant, Voltaire e muitos outros.

As épocas se comunicam, descrevem fragilidades, se complementam. Contemplar um mundo de perfeições, ainda, permanece como desejo. Há, no entanto, uma maior aceitação das lacunas, das ilusões, das dificuldades. As religiões difundem o pecado e a culpa. Isso confunde, obscurece, hierarquiza. Se a compreensão das travessias humanas não se limitasse aos desenhos dos naufrágios, haveria uma abertura para não se castigar com os desacertos. Uma história de glórias perenes não convence. Engana. A verdadeira civilização não está no gás, no vapor ou nas mesas girantes, está na diminuição dos vestígios do pecado original (Baudelaire).

Quando John Lennon canta Imagine traz de volta utopias, celebra solidariedades e ternuras. Conversa com tempos que não viveu, que não moram próximos dos seus devaneios. Os encontros, que parecem transcendentes, compõem a convivência social. Nem tudo rascunha uma racionalidade indiscutível e o território da sensibilidade não deixou se ocupar pela aridez continua do descartável. A cultura se arquiteta nos contrastes, nos estranhamentos, nos exílios. A dor não é incomum, nem a falência do humano. Se a incompletude admitisse leituras mais animadoras, o trágico não seria a imagem do horror e do fracasso.

Não há como negar a falta, o sufoco, as oscilações. Nossas virtudes não podem ser absolutas. Possuem as brechas de quem não suportou viver no paraíso, porém o reinventa em nome de Deus e das fantasias. Portanto, não dá para esgotar as inquietudes, nem iluminar todas as sombras. Eu era tão tímido que achava sempre um jeito, de uma maneira ou de outra, de cometer o erro que mais ansiosamente queria evitar( Nabokov). Talvez, a confissão da timidez e do medo do descontrole nos salve da vontade de buscar alguma forma de redenção. As astúcias, então, onde  ficariam? Ulisses não completaria seu trajeto e Penélope seu manto?

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5 Comments »

 
  • Marcelo de Barros-História-bacharelado 2 périodo disse:

    Esse texto realmente é muito interessante, principalmente no que toca na parte da ciência que não consegue eliminar todos os dogmas e ,de certo modo, até cria alguns como no caso da teoria defendida por levi bruhl ,que diz basicamente que o pensamento humano passa por uma fase pré lógica para depois chegar a lógica,ciêntifica.
    Muitos estudiosos acreditaram nisso,até levi strauss no livro o pensamento selvagem refutar isso e admitir que não tinha nada de ilógico para as pessoas da antiguidade admitir que a terra era o centro do universo, ja que não havia aparelhagem para se estudar isso,o que ele quis dizer é que habitos culturais só podem ser observados a partir do sistema que ele pertence,senão entramos no etnocentrismo,algo muito comum em todas as épocas.

  • Marcelo

    Há muitas formas de pensar e imaginar o mundo, mas sempre marcadas pela lacunas. Não somos absolutos.
    abs
    antonio

  • Rafael Ferreira disse:

    É muito problemática essa questão da ilusão e de crença, realmente é difícil distinguir muitas vezes a ciência da religião, já cheguei a me questionar várias vezes quanto a isso e percebo o quanto a humanidade tem ainda a evoluir. O mundo é muito diverso, os desejos são diferentes e o modo como cada um irá olhar para o mundo ao seu redor torna mais difícil a existência do perfeito e do verdadeiro, Jung já chegou a afirmar que o pecado nada mais é do que a culpa ao perceber a relação entre o eu-perfeito e o eu-real. Acredito que devemos confiar desconfiando sempre, pois não podemos nos perder em dúvidas, mas temos de ter sempre em mente que podemos estar errados, principalmente quando se trata de crença, um ambiente tão delicado e composto pela ilusão e a confiança cega (sem comprovações da “realidade”). Ainda existe muito o que se penssar quanto a isso.

  • Emanoel Cunha disse:

    As considerações que vieram a ser constituídas com o iluminismo trouxeram em sua bagagem o aniquilamento de diversos antagonismos, existentes antes mesmo da modernidade. Dentre destes, certos dogmas que se sobressaíram desse caos foi à ciência, ao qual passou a lutar contra as idéias que as religiões difundiam e ao mesmo tempo abscurecia a sociedade com suas filosofias.

    Após “as luzes da razão” serem ampliadas com êxito nos estados modernos, os imaginários sociais das religiões passaram a ser questionados, e na medida em que a ciência foi gradualmente ganhando espaço, a mesma configurou novos paradigmas, tanto na forma de dominar o conhecimento, impulsionando a idéia de progresso do homem, como substituiu o os papéis que antes eram criados por Deus e não pelo homem.

    Nietzsche quando em sua obra – a Gaia da ciência-, afirmava que: “o homem matou Deus”, ele buscava criticar a sua época onde as essências das antigas filosofias estavam sendo demolidas pelo antropocentrismo do Homem individualista. O desenvolvimento da ciência como a razão essencial da verdade absoluta, passou a desvalorizar o corpo, os instintos, os impulsos e tudo aquilo da qual o homem não podia conhecer.

    Esse emblema paradigmático da modernidade, até da contemporaneidade desenvolveu novas discussões e questionamentos trazendo perspectivas de se pensar: quais os problemas que permeavam e ainda permeiam as relações sociais do homem com a modernidade? . Essa reflexão nos faz lançar mais do que um olhar à realidade e desconfiar que esses projetos contribuíram bastante para humanidade, mas que ao mesmo tempo, os iludiu com suas filosofias astuciosas. Contudo, essa engenharia ampliada pela ciência não cumpre com seus objetivos, pois as virtudes do homem a cada dia que se passa são destituídas de suas essências e o individualismo, cresce, com falta das incompletudes de mudarmos os rumos da construção de uma sociedade que compreenda os processos que desenvolve sua cultura e seu tempo.

    Bom texto professor, obrigado pela reflexão!
    Emanoel Cunha

  • Emanoel

    Há sempre alternativas, pois o absoluto é apenas uma fuga da incompletude.Por isso, a reflexão e o olhar atento fazem bem.
    abs
    antonio

 

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