O fogo da memória, a memória do fogo

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A cultura não desparece como um cometa. Ela se guarda na memória. Sua força é incomensurável. São tradições que se tocam, anos vividos, solidariedades, tristezas, descuidos. Somos cultura. Nosso corpo possui registros dos anos passados. Não dá para riscar o tempo da história. Seria um absurdo, um suicídio. Por aqui, os incêndios são comuns. Há os que derrubam prédios, acabam vidas. E os simbólicos? Não quiseram derrubar os vestígios da escravidão? São podres os poderes que governam um Brasil tão extenuado.

O fogo indica transformação ou significa o juízo final? Ele pode ser manipulado ou resultado de desgovernos cínicos. O Museu Nacional sucumbiu. Faltou água. Faltou atenção. Faltou tudo. Sacudimos fora o que parecia inesgotável. O desastre não tem tamanho. Dói como um delírio inacabado. O Rio de Janeiro se sustenta no grito. Suporta maldições, serviu de moradia às espertezas de Cabral. Tudo está sob ameaça. Será que estão lembrados da Biblioteca Nacional? Há algum projeto para protegê-la?

No meio de um processo eleitoral esquisito, a sociedade é inundada por promessas. As dívidas serão quitadas? Os bancos estão lucrando menos? Como vão os hospitais? Mas o debate é ridículo, a mídia ganha dinheiro produzindo escândalo, abrindo espaços para agressões e fakes news. O fogo, aqui, não queima as impurezas, porém destrói as possibilidades dos sonhos. O sombrio Temer não se abala e o Supremo não deixa que a grana se esconda. Afundam os que pretendem salvar a ética. Brincam de acumular privilégios.

Fica raro ouvir notícias animadoras. O cotidiano surpreende de forma cruel. Padecemos de esquecimentos que destroçarão as utopias ou o direito a pensar na revolução. São os sustos,  sempre doentios. Fala-se de que o país tenta redemocratização. Mas quando houve momentos de ausência do autoritarismo? Os preconceitos são mínimos? Os sofrimentos da maioria se foram? É tolice cantar a democracia quando o capitalismo corrói até o desejo de ir à rua. Olha-se para a política, observa-se a hipocrisia, não se sabe se a travessia é curva. O fogo mata até o anônimo. Por dentro, a subjetividade pede ajuda para poder imaginar.

 

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1 Comment »

 
  • Rivelynno disse:

    …o que é importante? Quem determina o que é importante e para quem é importante? O que é a cultura? É aquilo que é importante para mim ou para você? A cultura é algo que se aprende, que se adquire, que se é selecionado por alguém ou por um grupo como algo importante a ser preservado. Quando uma maioria de pessoas são privadas diariamente de uma boa educação básica e uma ordem social mínima, esta maioria tende a desconhecer o que é uma boa cultura ditada por uma minoria e nunca assimilada ou entendida. O principal problema é quando temos um poder executivo, legislativo e judiciário gestados por uma elite ignorante, autoritária e corrupta, que não atende o interesse público. Um texto muito bom, exatamente bem escrito, parabéns, professor…

 

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