O fôlego frágil da paz

As intrigas não cessam e estimulam a violência. As disputas são muitas. Procuram firmar espaços suspeitos na economia, alimentam preconceitos culturais, minam resistências em defesa do meio ambiente. Um mapa da violência nos deixaria sem esperanças. Portanto, há quem use máscaras, se esconda em missões religiosas, agrade aos poderosos. O mundo se divide e se polariza. Não faltam suspenses. É difícil se imaginar a paz, a generosidade num sistema que consolida negócios obscuros e incentiva o comércio de armas. Os que se esforçam para encontrar saídas merecem celebrações, como o ministro da Etiópia, Abiy Ali. que luta contra segregações e ressentimentos, buscando anular pesos de inimizades seculares.

Ultrapassar os limites das tensões e mostrar boa vontade para o diálogo trazem sonhos e desmontam vinganças. O exemplo fica, embora a instabilidade permaneça e ameace sempre. Já houve tantas guerras, existem tantos ressentimentos que a sociedade não sossega. Basta observar a quantidade de refugiados, as promessas dos governos populistas, os militarismos tão defendidos pelos ditadores. Talvez, a reinvenção da história nunca aconteça. Fala-se do pecado original, outros esperam a redenção e muitos ganham dinheiro com as crenças populares. Simulam e brincam com a fé de forma cínica. As religiões pactuam com o individualismo, desfazem a força do sagrado, vendem mercadorias.

A convivência com as informações constrói um cotidiano de constante especulações. As redes sociais são espertas na busca de boatos, criam polêmicas, fragilizam parcerias solidárias. Elas funcionam como esconderijos privilegiados, embora haja resistências, denúncias. A complexidade é vasta, pois as tecnologias produzem elaboradas versões de desastres ecológicos, se articulam com os negócios e não querem compromissos com as verdades. Soltam as intrigas ou provocam as intrigas. Aproveitam-se das covardias e das armadilhas. A imprensa lucra com os desencontros e fustiga imaginações doentias. Estamos afogados na lama das controvérsias fabricadas. Parece estranho…

Houve expectativa com relação ao Nobel da Paz e surgiram nomes e argumentos dos mais diversos. Mas é importante compreender a dificuldade da escolha. Qual seria a grande questão? Há fôlego para se imaginar um mundo sem conflito? As utopias adoeceram e aguardam a morte? Há muitas indeterminações, o mundo é vasto, a política inquieta e sacode inseguranças. O nome de Raoni apareceu ,junto com o de Lula, nas especulações diárias. Causou polêmicas e justificou ironias. Nem todos se colocam no debate procurando se libertar de passados pesados , abrir as portas para conversar e recuperar reflexões comprometidas com transformações coletivas. A carga dos conflitos é imensa e o egocentrismo não se foi. A arquitetura da paz é frágil ou mesmo uma grande fantasia.

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …a arquitetura da paz é frágil? É ela mesma uma fantasia? Seria uma meta ou uma aspiração? Qual a diferença? Como uma meta, a paz deveria chegar como uma ciência exatada, uma fórmula a tornaria possível, num prazo determinado. Como uma aspiração, ela não teria um prazo, não seria materizada num período exato, mas sendo desejada, a paz seria e é cultivada dentro de um horizonte de perspectiva, as vezes, apenas no sonho. Sobre os indicados ao prêmio e o vencedor de fato, eu gostaria de registrar um momento simbólico veiculado na tv, quando jornalistas captaram a felicidade de um corredor que ficou em quinto lugar. Perguntaram a ele, qual o motivo de sua euforia, ele sabiamente respondeu: a minha vitória, eu venci, eu tirei o quinto lugar e ninguém tirará isso de mim, porque quem inventou a vitória do primeiro lugar e a derrota das outras vitórias foi o sistema capitalista, na sua ótica da desigualdade, eu sou um vencedor. Logo, não ganhar o Nobel da paz não faz os que foram preteridos menores, eles são vencedores porque suas histórias alimentam e inspirami a paz, as práticas da paz e com elas nos emocionamos. É preciso trocar a forma de ver ganhadores e perdedores, por algo mais coletivo e solidário…

 

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